A era dos "Amélias"

Aqui em Portugal, chamar “Amélia” a alguém é outra forma de chamar “mariquinhas” ou “medricas“. Que reclama de algo que ele acha injusto, mas no final, não houve nada de ilegal, a não ser que o outro foi melhor do que ele e este não aceita.

Feita a devida interpretação, eu digo que estamos a viver uma era de “Amélias”. Onde as corridas já deixaram de ser emocionantes e competitivas para serem esterilizadas e insonsas. Onde o vencedor, em vez de ser elogiado por ter feito uma manobra ousada para alcançar a liderança, têm no final de pedir desculpas porque o piloto que passou era… o seu companheiro de equipa. Claro, nada disto acontece na Ferrari porque há muito tempo sabemos que Alonso está descansado, porque é primeiro piloto. E se por azar o segundo piloto estiver na sua frente, ele cederá, aconteça isso em Interlagos ou em Melbourne.

Sim, Vettel armou-se em Didier Pironi e pode ter comprado uma guerra com Mark Webber, mas ele é competitivo e não deseja entregar os pontos facilmente. Sim, Vettel foi injusto quando não avisou que iria desobedecer às ordens e partir para o ataque a Webber, porque queria ganhar uma corrida, custasse o que custasse. Ele é competitivo e abdicar da vitória vai contra todos os seus instintos. E claro, o australiano foi ingénuo. E sim, até Webber pode ter razão de queixa quando diz que Vettel é protegido pela equipa, mas o australiano esquece que, num duelo com armas iguais (o que não foi neste caso, sublinhe-se), o alemão ganha na maioria das vezes. Há o risco de bater, como muitos diriam e defendem neste caso, mas esse é o risco da competição.

Já no lado da Mercedes, houve a mesma reclamação, mas porque Nico Rosberg, que era mais veloz do que Lewis Hamilton nas últimas voltas, foi impedido de ultrapassar por ordens de Ross Brawn. É certo que Rosberg não iria apanhar Webber, e nesse ponto, Brawn tinha razão. Mas colocar ordens de equipa já na segunda corrida do ano abre um perigoso precedente, e fica a passar a ideia de que na equipa, não contam com o filho de Keke Rosberg para vencer corridas ou para lutar pelo campeonato. Ou se sim, só se Hamilton tiver um problema. Porque em carros iguais, Brawn tem de justificar porque é que gastou milhões para trazer o inglês para a equipa de Estugarda… e aí está outra injustiça. Porque deveriam ter dito logo a Rosberg que ele não iria ser primeiro piloto e pedisse para ser escudeiro de Hamilton,

Assim sendo, esta é a Formula 1 atual: a das Amélias. Onde em nome do politicamente correto, Vettel tem de pedir desculpas pelo atrevimento de querer, e ter, vontade de vencer. Os pilotos são competitivos e pedir para abdicar de ganhar porque “tem de pensar na equipa” é das coisas mais complicadas de se dizer. Claro, ordens de equipa existem desde a noite dos tempos, e no passado, as desobediências resultaram em guerras e mortes: Williams em 1981 (Reutemann vs Jones) Ferrari em 1982 (Pironi vs Villeneuve) McLaren em 1989 (Prost vs Senna), mas os pilotos são competitivos e pedir para abdicar de vencer vai contra todos os seus instintos. 

OK, isso até se compreende. Mas pedir desculpas? Essa é nova. Lembro-me de no passado, em 1981, Carlos Reutemann ter pedido a Alan Jones para “enterrar o machado de guerra“. A resposta que teve foi tipicamente australiana: “Claro que enterro. Nas tuas costas“.

Não sei se gostam disso, mas eu neste campo sou antiquado: gosto de ver competições, não procissões. Se a Formula 1 quer isso, então mudem o regulamento e façam como tinham a extinta A1GP: eliminem o campeonato de pilotos e mantenham o de Construtores, Assim, colocavam um rodizio de pilotos nos carros, e estes andariam em fila indiana do inicio até ao fim, amealhando pontos para o campeonato. As pessoas têm de entender que isto é competição e o primeiro adversário é o seu companheiro de equipa, não são “Batman e Robin”. Mas se acham que procissões e chegadas em formação tem de fazer parte da Formula 1 atual… OK. Tou a ficar velho e com saudades das boxes cheias de óleo, dos motores que se partiam a cada corrida e dos pilotos beberrões e diziam o que pensavam à frente de um microfone.

Eu gostei da manobra de Vettel, e com isso, ele subiu imenso na minha consideração. Sim, sei que não foi totalmente justo e isto pode ter acendido uma guerra dentro da equipa, mas são assim que são escritas as páginas da Formula 1. Quer queiramos, quer não. Agora digo isto: esta Formula 1 atual demonstrou mais uma vez que de competição, tem quase nada. Faz-me lembrar comida de hospital, é insonsa.
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9 pensamentos sobre “A era dos "Amélias"

  1. Até se compreende a ainda maior vontade do Vettel ganhar, é que o Alonso fez 0 (zero) pontos… é errado mas visto por este prisma até se desculpa…

  2. Tem razão. A F1 tem que ter risco, drama e vontade de vencer.

  3. desculpa, mas gostar do Vettel por esta manobra e acusar o Webber de "amélia" é do mais injusto que li neste blog.esqueceste-te que neste mesmo GP, o teu bravo Vettel, pediu à equipa "Webber is too slow, take him out of my way".o mesmo bravo Vettel que no GP da Inglaterra de 2011, quando ameaçado por um Webber muito mais rapido, pede à equipa "be wise", e que a equipa pediu pouco depois a Webber, "maintain the gap"Hoje, passei a apoiar muito menos o Vettel (que passa o tempo todo a choramingar via rádio – EUA2012), e a apoiar um pouco mais o Webber, que ao menos é leal para com ordens superiores.

  4. Sim, Fidalgo. Ele pediu isso e a equipa fez orelhas moucas, logo, se ele queria aquele lugar, teria de ir atrás dele e lutar, foi isso que fez. Muito ao contrário do Alonso, que se calhar, se queixasse, o Massa teria um "Fernando is faster than you" a ressoar nos ouvidos.Tu podes ter as tuas razões para não gostar do Vettel porque ele foi à busca de mais uma vitória. É legitimo. Mas se é assim, então a Red Bull diga "fair and square" que também segue ordens de equipa e diga que trabalha para a equipa.Agora é Formula 1? Se calhar também é, mas para mim já não. Não no sentido do que era em 1980, por exemplo. Aliás, como tu sabes, a cada ano que passa, esta Formula 1 é uma caricatura do seu passado glorioso. Mas enfim, se calhar era esse o objetivo do Bernie Ecclestone: "depois de mim, o caos."

  5. Optima analise.Concordo!Também eu sinto que estou a ficar velho para ver estes meninos a guiar estes carros de milhões de euros como se estivessem a jogar Playstation.Tenho saudades dos tempos em que homens a sério PILOTAVAM automoveis!

  6. Ok,diz-me só uma coisa:"Um piloto que nas reuniões de equipa concorda com estas definições de corrida entre pilotos e as aceita, e quando chega à corrida as manda às malvas e faz completamente o contrário, de que poderá ser chamado?Na minha opinião simples: Traidor. Se aceitou, então cumpre.E se Webber estava na frente, e recebeu a ordem, então Vettel sabia que Webber tinha o motor com menos potência e foi para cima dele. Ou seja, foi traidor e aproveitador , não cumprindo os acordos que fez;Resultado? simples. Não precisa de pedir desculpa. Tenho a certeza que Webber lhe vai fazer perder o campeonato… para aprender uma licção de humildade e de carácter;

  7. Webber não vai fazer isso, sabes porquê, Marco? Para ele, isso significaria assinar a sua "sentença de morte", não só na Red Bull, como na própria Formula 1. Ele tem como empresário o Flávio Briatore, e ele precisa de ter alguém importante por num lugar importante como a Red Bull. E a Ferrari não está com muita vontade de o ter como "empregado do mês", porque já têm um melhor: Felipe Massa. Ainda por cima, ele está a melhorar a sua forma…E da maneira como dizes, preferes ter ordens de equipa. Tudo bem, é legitimo. Mas já agora, vai ver o que Webber fez no GP da Grã-Bretanha de 2010, quando também desobedeceu às ordens e venceu a corrida. Lembras-te do que ele disse na altura? Refresco-te a memória: "Nada mau para segundo piloto". Em jeito de conclusão, caro Marco: não há santos nem anjos. E Vettel foi apertado por Webber quando o tentou ultrapassar. Viste alguma vez o Vettel a fazer manobra idêntica? Até agora, não. Pode ser que o faça no futuro, mas até agora, não tens nada que possas apontar o dedo. Somente isto.

  8. Gostaria de complementar o comentario de Paulo Alexandre Teixeira. Além dessa corrida na Inglaterra em 2010, podemos contar com o GP do Brasil no final do ano passado. Onde Webber largou mal, pressionou demasiadamente seu companheiro de equipe nos primeiros metros, fazendo-se perder inumeras posições.Vettel NUNCA precisou do Webber para vencer campeonatos! Nunca! Foi assim em 2010, 2011, 2012 e da mesma forma nesse ano corrente.

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