O novo Pacto da Concórdia e a máquina de fazer dinheiro que é a Formula 1

O fim de semana do GP húngaro irá ser marcado pela noticia de que, por fim, Jean Todt e Bernie Ecclestone terem chegado a um entendimento sobre o novo Acordo (ou Pacto) de Concórdia, que deveria estar em vigor desde o inicio do ano, mas que até agora, não tinha acontecido. A ser verdadeiro, isso significa que dentro em breve, provavelmente em Paris, ambos os lados irão colocar em papel as assinaturas de algo que existe sempre desde 1982, sempre negociado e renovado, e com este novo acordo, será prolongado até 2020, quando o Tio Bernie (caso esteja vivo e livre) já for nonagenário. 
De uma certa forma, é um alivio que ambas as partes tenham chegado a esse acordo, pois a cada semana que passava sem isso assinado, as tensões cresciam entre Ecclestone e as equipas, bem entre ele e Todt, o presidente da FIA. Uma das razões para essa tensão tem a ver com a contribuição que a FOM deveria dar à entidade que regula o automobilismo, dado que Ecclestone conseguiu convencer Max Mosley, algures em 2001, a ceder a sua parte dos direitos por um periodo de… cem anos. Outro problema do qual afastava Todt de Ecclestone, como fala a Autosport portuguesa, era de que o “anãozinho tenebroso” queria cobrar uma verba aos jornais, da mesma maneira que cobre às cadeias de televisão, ou seja, que pagassem para falar sobre a Formula 1. E sobre isso, Todt era terminantemente contra.
O francês, que durante este tempo todo teve uma posição muito “low profile” – uma boa razão para isso poderá ser as eleições para a presidência, que acontecerão no final deste verão – quis que esse acordo chegasse depressa, mas sem pressa, pois não queria hostilizar Ecclestone, já que este ainda têm muito poder para colocar um dos seus “paus mandados”, como aconteceu com Max Mosley, em 1991. Contudo, nenhum dos lados cedia nessa parte até então, e isso prejudicava as equipas, pois elas com o novo acordo, ele tinha cedido mais uma percentagem dos seus ganhos – fala-se que agora, as equipas vão receber cerca de 60 por cento dos ganhos, contra os 50 que recebiam antes.
E sobre a máquina de fazer dinheiro que é agora a Formula 1, na semana que passou apareceu uma excelente matéria feita pelo Luis Fernando Ramos, vulgo o Ico, que detalhou as receitas que a Formula 1 ganha nos dias de hoje graças à ação de Bernard Charles Ecclestone, nascido a 28 de outubro de 1930 em Londres. Lá, ele mostra um estudo financeiro de 2011 onde as receitas dos Grandes Prémios (aqui em dolares), estimados em 1500 milhões de dólares, um terço delas – 510 milhões – vêm dos promotores dos circuitos, enquanto que outro terço, 490 milhões, vêm das receitas televisivas. As receitas em termos de publicidade estática andam à volta dos 225 milhões de dólares.
Interessante ler sobre as taxas que Ecclestone aplica aos promotres, que nos tempos que correm, é graças à expansão para a Ásia do qual Ecclestone sempre batalhou, é que se chega a esse valor. Alguns dos “novos ricos” da Formula 1 foram capazes de gastar muitos milhões por ano só para que o seu país esteja nas bocas do mundo, apesar da sua parca – ou nenhuma – tradição. Exemplos? Voltando à Autosport portuguesa, descobre-se que Singapura paga 48 milhões de euros por ano para ter um Grande Prémio e a Coreia do Sul despende 42 milhões de euros anuais para ter uma corrida num “meio de nenhures” chamado Yeongam. Não admira que por estes dias, a organização do GP coreano queira livrar-se deste contrato o mais rapidamente possível…
Outros exemplos: Abu Dhabi gasta 40 milhões, Índia paga desde 2011 32 milhões de euros, apesar de todos os obstáculos, Bahrein paga 32 milhões de euros, mesmo com a agitação social existente, e a China dispende 27 milhões, embora já tenha pago bem mais. Para terem uma ideia, em média, os organizadores europeus dispendem entre 13 a 16 milhões de euros anuais. E há uma excepção: o Mónaco, que recebe de graça, porque a Formula 1 – e Ecclestone – reconhece que necessita ter as ruas do Principado no seu calendário, pois acrescente imenso “glamour” à competição.
E sobre as receitas televisivas, volto à Autosport portuguesa para falar sobre os valores que algumas cadeias televisivas estão dispostas a pagar para ter a Formula 1. A Sky Sports inglesa e a RTL alemã são as mais caras, pagando 60 milhões de euros cada um, enquanto que a Sky alemã, a RAI italiana dispendem 40 milhões de euros anuais. Já a Fuji TV japonesa, a Rede Globo brasileira, o Canal 5 espanhol e a TF1 francesa gastam 20 milhões de euros cada um. Mas Ecclestone quer transferir a Formula 1 para canais pagos e tende a carregar ainda mais nos contratos. Daí que a BBC, no final de 2010, tenha decidido abdicar de transmitir toda a temporada, por causa dos valores cada vez mais incomportáveis.
Mas os lucros são incomparáveis. O Ico fala que em termos de despesas, estas chegaram a… 350 milhões de dólares. Um terço das receitas! Mas 60 por cento vai para as equipas, divididas por onze (de uma maneira um pouco estranha) e os 40 por cento vai para a “holding” Delta Topco, do qual a CVC CApital Partners e o fundo Alpha Prema, de Ecclestone, fazem parte. Só o “anão tenebroso” recebe anualmente 62,5 milhões de dólares, graças ao fundo Alpha Prema. E isso é 14 por cento dos receitas, pois a fatia maior, 42 por cento, vai para a CVC Capital Partners. Impressionante, hein? Não admira que Ecclestone seja um dos homens mais ricos da Grã-Bretanha, e as suas filhas rebentem tudo nas suas vidas de luxo…
Contudo, o novo Acordo aparece numa era de transição. Fala-se há muito tempo sobre a “flutuação” da Formula 1, ou seja, esta entrar em Bolsa, alienando algum do seu capital para que o público possa adquirir ações. O interessante é que, em vez de o fazerem em Londres, Paris ou Nova Iorque, eles queiram fazê-lo em Singapura. Não que não seja uma bolsa de segunda linha, mas mesmo apostar aí mostra que acreditam na Ásia. Mas a preferência por essa cidade-estado em vez de outros lugares como Hong Kong ou Tóquio poderá explicar que não deseja responder a muitas perguntas incómodas, por exemplo.
E também não se pode esquecer que este será provavelmente o último acordo celebrado por Ecclestone, enquanto for vivo e capaz. No final de outubro, ele completará 83 anos e ele já começa a saltar algumas corridas, as mais distantes do campeonato, porque a saúde já não permite entrar e sair constantemente de aviões. Já é altura de se pensar num sucessor para ele, e há muitos nomes a “flutuarem”, uns dentro, outros fora da Formula 1, mas esta poderá ser uma altura ideal para pessoas como Jean Todt ganhar um maior poder negocial e pedir uma fatia do qual acham justa de receber. Ou até de revogar o famoso “Acordo dos Cem Anos” que o seu antecessor assinou, e recuperar receitas perdidas. 
Para piorar as coisas, Ecclestone tem de lidar com aquilo que agora se chama de “caso Gribowsky”, no qual a justiça alemã (mais concretamente a Procuradoria de Munique) o acusa de suborno para ficar com os direitos da Formula 1, que então pertenciam ao banco Bayern LB – e do qual pagou cerca de 40 milhões de euros a Gerhard Gribowsky, algures em 2005 – o poderão colocar em sérios apuros. As acusações estão enumeradas e o julgamento irá acontecer dentro em breve, e justiça alemã já conseguiu condenar Gribowsky a oito anos de prisão. Quem nos garante que esta seja mais condescendente com um ancião com quase 83 anos? Tenho sérias dúvidas que esta feche os olhos, logo, suponho que os próximos tempos serão bem complicados para ele.
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