A história de Roy James, o ladrão que quis ser piloto

Há umas semanas andei a falar de Roy James, um dos integrantes do Grande Assalto ao Comboio de 1963, onde ele participou como um dos condutores dos carros de fuga. Na altura, falei sobre o possível envolvimento de Bernie Ecclestone no negócio, quando na realidade, ele ajudou a fazer um troféu para o “anãozinho tenebroso”. Contudo, quando comprei a edição de setembro da revista “Motorsport”, descobri que a revista dedica um artigo sobre ele, pois na altura era um piloto relativamente bem cotado no automobilismo britânico, mais concretamente na Formula Junior, o equivalente à Formula 3 atual.

Num artigo escrito por Mike Doodson, James têm um apelido: “Weasel” (Fuinha). Nascido em 1936 num bairro do sul de Londres, a sua familia desfez-se em tenra idade, e aprendeu o oficio de joalheiro quando saiu da escola. Mas por essa altura, ele começou a conectar-se com os “gangs” locais, que o levaram para a cena criminal. Mas para além dessas duas coisas, ele tinha uma terceira: o automobilismo.
Desde cedo que era fascinado pela velocidade, e uma ocasião, teve a ousadia de roubar um Jaguar. E não era um qualquer: pertencia a Mike Hawthorn, e foi o buscar diretamente do parque de estacionamento do Steering Wheel Club. No mínimo, ousado. Os produtos de alguns roubos, especialmente de joalharia, arranjaram-lhe dinheiro suficiente para começar a sua carreira no karting. De quando em quando era apanhado, mas as sentenças eram bem curtas.

Uma das cenas mais interessantes aconteceu em 1963, quando comprou um Brabham BT6 de Formula Junior, que tinha pertencido a Dennis Hulme. Doodson conta: “Denny (Hulme) contou-me anos depois que ele e o designer Ron Tauranac ficaram surpresos quando viram este desconhecido a parecer na fábrica e a pagar o chassis com uma maleta cheia de dinheiro.

Há uma discussão – algo pedantica – sobre se o chassis era um BT2 ou um BT6, mas provavelmente a melhor parte é que o carro acabou por ir parar à Nova Zelândia, onde quando os oficiais de alfândega descobriram que tinha pertencido ao famoso membro do Grande Assalto, decidiram em cortar as pontas do chassis para verem se ele tinha escondido ali ou não algum maço de notas.”

Tempos depois soube-se como tinha arranjado dinheiro para o seu Brabham: em dezembro de 1962, um camião de transporte de valores tinha sido assaltado no Aeroporto de Heathrow, e Roy James era um dos condutores dos carros de fuga, “providenciando” não um, mas dois Jaguares. E esse dinheiro era a sua percentagem do assalto.
A carreira de Roy “Weasel” James na Formula Junior começou acidentada. Em Goodwood, no inicio de abril, perdeu o controle do seu Brabham na curva Knickerbrook e capotou, tendo saído do carro sem ferimentos. Mas pouco depois, ele começou a vencer: oito corridas, das 14 que participou naquela temporada. A sua última vitória – e também da temporada – aconteceu em Caldwell Park, dez dias depois do Grande Assalto ao Comboio.

A sua participação era simples: ele seria o condutor de um dos carros de fuga. O Grande Assalto ao Comboio foi mais do que um assalto comum, foi uma operação militar: o plano era de desviar o comboio que transportava os valores vindos de Londres para Glasgow, na Escócia, e roubar o seu conteúdo. E não era um qualquer: esse dinheiro era recolhido dos bancos, para ser queimado. E notas velhas – na sua maioria notas de 1 e 5 libras -, prestes a serem retiradas de circulação, seriam o ideal para os bandidos, porque não eram marcadas, indetectáveis para a Policia. 

O plano envolvia um ex-maquinista, que iria levar o comboio sequestrado para um ramal abandonado, onde teriam Land Rovers à espera para transportar o dinheiro para longe dali. Todos os ladrões teriam a capa tapada e mãos cobertas, para não deixar qualquer impressão digital. As coisas não correram muito bem: o maquinista não apareceu, logo, tentaram convencer os que estavam presentes a colaborar. Quando um deles negou, foi espancado de forma brutal e ficou com sequelas para a vida. No final, foram roubados 2,5 milhões de libras, uma soma astronómica para a época.
A segunda parte do plano seria que eles ficassem numa quinta ali perto, a Leatherside Farm, e não levantar suspeitas, indo embora aos poucos, tentando se misturar com os locais e não deixando quaisquer impressões digitais. Só que eles começaram a ser descuidados e tiraram as luvas. Roy James foi um deles, quando os tirou para dar pratos de leite aos gatos que andavam por ali perto. A policia conseguiu as suas impressões digitais no final de agosto, e a partir dali foi uma “caça ao homem” a todos os membros do grupo. Aos poucos, foram capturados e a sua vez aconteceu em dezembro.
Os detalhes da sua captura são tipicos de filme, como conta Doodson: “Não foi senão em dezembro que a lei apanhou James, algures em Londres. Foi apanhado a tentar escapar dos policias, andando por telhados gelados,  nas cuecas e uma mala contendo 12 mil libras em notas usadas. Têm de se tirar o chapéu pelo chutzpah” (atrevimento ou insolência) do advogado, que afirmava que o seu cliente não tinha qualquer conexão com o assalto e que ele iria explicar as inusitadas circunstâncias da sua prisão
Contudo, os juízes não foram em cantigas e todos foram condenados a longas penas de prisão, pois queriam que fossem vistos como um exemplo do “longo braço da Lei”. Quase todos foram condenados a 30 anos, incluindo James. Pouco depois, em 1964 e 1965, Charles Wilson e Roy Biggs fugiram das prisões onde estavam e James foi colocado em solitária durante oito meses, porque temiam que ele pudesse também fugir. 
James aguentou o tempo de prisão, e após onze anos de encarceramento, em agosto de 1975, foi-lhe dada liberdade condicional. Tinha 39 anos e logo a seguir, tentou o regresso ao automobilismo. John Webb, então o diretor do circuito de Brands Hatch, lhe deu uma oportunidade de redenção – e também para conseguir alguma publicidade para o caso. Correndo na Formula Ford, ficou famoso por um incidente no circuito de Mallory Park onde, partindo da primeira fila, despistou-se na primeira curva (!) levando consigo mais dois pilotos: James Weaver e um jovem rapaz chamado… Nigel Mansell.
A sua segunda carreira foi breve e acabou quando corria na Formula Atlantic. Um despiste o fez com que fraturasse uma perna e decidira que era tempo de acabar de vez. Casou-se com uma rapariga bem mais jovem do que ele, teve dois filhos, foi viver para o sul de Espanha, mas o casamento não durou muito. O divorcio foi violento, e para piorar as coisas, em 1983, teve novos problemas com a lei quando quis importar ouro sem pagar os devidos impostos. Contudo, foi ilibado das acusações no ano seguinte.

Por essa altura ele já tinha regressado ao oficio de artesão e conhecido Bernie Ecclestone, que na altura era o patrão da Brabham. Em 2005, ele contou essa história numa entrevista ao jornal “The Independent”: “Roy era um grande amigo de Graham Hill. Quando ele saiu da prisão, ele pediu-me um emprego [na Brabham].”, começou por dizer. “Não o ia dar-lhe um lugar na equipa, mas em vez disso, dei-lhe um troféu para o fazer, pois soube que tinha sido joalheiro. Ele fez um troféu que é dado todos os anos aos melhores promotores de Grande Prémio. Eles não sabem que estão a receber um objeto que foi feito por um dos integrantes do Grande Assalto“.

Em 1993, teve de novo problemas com a lei, quando pegou numa arma e disparou por três vezes contra o sogro numa discussão violenta por causa da custódia dos seus filhos. Resultado final: ele foi condenado a seis anos de prisão, mas saiu em 1996 por razões médicas: ele fora submetido a um triplo “bypass”. Mas não foi o suficiente: a 21 de agosto de 1997, sofreu um ataque cardíaco fatal. Tinha 61 anos.  

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2 pensamentos sobre “A história de Roy James, o ladrão que quis ser piloto

  1. Esta história é fantástica e o Roy é a cara do Prost.

  2. Olha que essa do Prost também me passou pela cabeça, Groo…

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