Um testemunho americano sobre James Hunt

Nos dias em que todos nós falamos sobre James Hunt e sobre o filme “Rush”, encontrei esta história interessante contada na mítica publicação britânica Motorsport sobre um aspecto pouco conhecido do piloto britânico: as suas aventuras americanas. Quando falo das suas aventuras, não digo tanto sobre as mulheres e a farra, mas sim sobre quando correu na na Formula 1 e noutros desportos, como a Can-Am, em 1973, e na formula 5000 em 1974, ambos ainda nos tempos da Hesketh.

O jornalista Gordon Kirby conta como o encontrou pela primeira vez, algures no meio de 1973, no circuito de Elkhart Lake: “Lembro-me de ver James a vaguear pelo paddock usando uns jeans bem gastos e uma t-shirt rosa demasiado pequena para ele, onde se conseguia ver o seu umbigo. Não estava entusiasmado pelo Shadow twin-turbo. ‘Esperava gozar alguma potência real. mas na realidade o carro era muito lento a responder, e quando começo a sentir a potência, a unica coisa que faz é rodar ainda mais os meus pneus. Não é muito divertido e durante a corrida o cockpit é como se fosse uma sauna’“, respondeu.
Naquela temporada da Can-Am, assitia-se a um jogo desigual: a McLaren tinha-se retirado da competição e a Porsche dominava com o seu modelo 917-30K turbocomprimido, preparado pela Penske, guiado pelo local Mark Donohue. Com mais de 1200 cavalos, foi mais tarde chamado de “Can-Am Killer”. Os únicos grandes rivais eram os Shadow, de Don Nichols, com Jackie Oliver como piloto principal – e nesse ano, estavam já na Formula 1, com Oliver e George Follmer como pilotos – mas na maior parte das vezes, estavam demasiado afastados dos Porsche. A crise do petróleo, no final daquele ano, fez com que a competição sofresse um abalo, que o fez suspender no final da temporada de 1974. Mas nessa altura, a Porsche tinha ido embora e a Shadow dominava sem oposição, com Jackie Oliver ao volante.
Nesse ano, Hunt voltou, mas para competir em duas corridas na Formula 5000, uma competição essencialmente americana, com motores Chevrolet V8. Dan Gurney tinha construido um chassis Eagle e convidou o piloto britânico a experimentar o carro em Laguna Seca e Riverside, ambos na California. As coisas tiveram resultados diferentes: na primeira corrida, foi segundo atrás de Brian Redman, e na segunda prova, era quinto quando se depistou a duas voltas do fim.
Mas o mais engraçado aconteceu depois da corrida de Laguna Seca, como conta o autor do artigo: “Uma noite, em Laguna Seca, houve uma festa improvisada onde James conseguiu arranjar umas cervejas, fumar uns cigarros e fumar de forma descontraída um “cigarro californiano” enrolado à mão por alguém. Nesses dias, não existia barreiras entre os pilotos e o pessoal da imprensa, e não havia aqueles irritantes PR’s pelo caminho, e não existiam recriminações por estarem a gozar um bom tempo. Na realidade, todos entravamos na festa.

Em 1976, Hunt estava já na McLaren, e a Formula 1 estreava-se no circuito citadino de Long Beach. A temporada tinha começado algo mal para Hunt e tinha abandonado a corrida americana, enquanto via o seu rival Niki Lauda a vencer. Kirby escrevia na altura para uma revista chamada “Sport” e disse ao que ia com o piloto britânico. Ele respondeu dizendo… se não queria ir com ele a Nova Iorque no dia seguinte. Nos dois dias seguintes, os dois, acompanhados por uma namorada de ocasião de Hunt, andaram a falar sobre a sua vida e carreira, entre aeroportos, aviões, jantares e sessões onde ele fumou os famosos “cigarros californianos”.

A fechar, refere uma história curiosa, que aconteceu quinze anos depois, numa entrega de prémios da Autosport britânica. Kirby ficou numa mesa com Hunt, Innes Ireland, Nigel Roebuck, Eoin Young e Maurice Hamilton. A razão porque estes dois ex-pilotos estavam na mesma mesa era porque ambos já eram jotnalistas, com Hunt a ser comentador da BBC ao lado de Murray Walker, enquanto que Ireland cobria a Formula 1 para outra publicação mítica, a Road & Track.

O convivio, segundo conta, foi ótimo, mas o mais engraçado foi o que aconteceu no fim: “No final da noite, James tirou o seu “smoking”, dobrou-o numa mochila e foi-se embora de bicicleta, a caminho da sua casa de Wimbledon. Um ano ou dois depois, quer James, quer Innes tinham desaparecido, com o primeiro a ser vitima de um ataque cardíaco e o segundo a sucumbir a um cancro.

Em jeito de conclusão, o aparecimento de um filme como “Rush” fez reavivar as memórias de uma personagem carismática, com um jeito bem alegre de viver. Saboreou a vida como se não existisse mais o amanhã, pois ele sabia que algum dia, as coisas poderiam acabar numa curva qualquer. E deixou uma corrente de recordações e bons momentos que agora se desfiam para uma nova geração de adeptos, muitos deles nunca viram Hunt correr ou sequer comentar as corridas de modo honesto e politicamente incorreto.

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