1976: O ano do verdadeiro "Rush" (parte II)

(continuação do episódio anterior)

4. UM INESPERADO RIVAL


No inicio de 1976, Niki Lauda estava no seu auge. Era o novo campeão do mundo e os esforços em transformar o seu Ferrari na melhor máquina do pelotão tinham compensado a aposta que Enzo Ferrari tinha feito quase dois anos antes. Em contraste, James Hunt parecia estar num beco sem saída. Apesar da temporada de 1975 ter sido a melhor de sempre da marca, com uma vitória em Zandvoort e o quarto lugar no Mundial de pilotos, a aventura com a Hesketh tinha chegado ao fim quando Lord Hesketh, o seu proprietário, viu que tinha gasto todo o seu dinheiro pessoal. Por uma questão de orgulho, sempre recusara arranjar patrocinadores, mas após algum tempo, verificou que ele tinha delapidado boa parte da sua fortuna pessoal e resolveu retirar-se do projeto, deixando Anthony “Bubbles” Horsley a lidar sozinho com a equipa. 
A decisão de Hesketh não poderia ter vido na pior altura para Hunt: era o final de 1975 e aparentemente, não havia vagas disponíveis nas equipas da frente. Tudo indicava que a temporada iria ser um duelo entre Lauda e o brasileiro Emerson Fittipaldi, vice-campeão do mundo na temporada anterior. Contudo, em novembro, o piloto brasileiro faz um anúncio chocante: decide abandonar a McLaren para ir correr pela brasileira Copersucar, o projeto que o seu irmão tinha decidido montar em 1974 e se estreara no ano anterior, com resultados modestos. Com uma vaga por preencher, o natural favorito é Hunt, e pouco depois, a marca anuncia o seu ingresso, bem a tempo da corrida inicial, no autódromo de Interlagos, em São Paulo.
A prova inaugural da temporada estava marcada para o dia 25 de janeiro de 1976, dando tempo para Hunt se adaptar ao seu novo carro, mas em Silverstone, a chuva e a neve impediu o britânico de fazer a devida adaptação ao carro, e quando a equipa desembarcou no Brasil, Hunt estava insatisfeito por não ter tido tempo para conhecer melhor o carro. E os treinos de sábado não correram bem, quando explodiu um dos seus motores Cosworth. Mas apesar dessas contrariedades, marcou a “pole-position”, a primeira da sua carreira!
Testamos duas vezes em Silverstone, e em ambos os casos o tempo estava molhado, portanto foi apenas em Interlagos é que pude guiar o carro ao máximo. Rebentamos um motor no sábado de manhã, e só pôde sair nos últimos vinte minutos da sessão. Na primeira volta cronometrada, fiz a pole-position, o que me deixou satisfeito…” contou anos depois ao jornalista britânico Nigel Roebuck. Ao seu lado na grelha estava Niki Lauda. 

Na partida, o austríaco levou a melhor, e Hunt seguiu no segundo posto, e lá ficou até que na volta 32, o seu acelerador ficou preso e ele terminou na berma. Lauda ficou sem o seu maior rival e venceu tranquilamente a corrida. E iria repetir o resultado na corrida seguinte, na Africa do Sul, com Hunt a marcar também a pole-position, mas o austríaco largou melhor e resistiu às pressões do britânico, que andou colado a si durante toda a prova no circuito de Kyalami.

Na terceira prova do ano, no novo circuito de rua de Long Beach, na Califórnia, Lauda cederia o primeiro posto a favor do seu companheiro Clay Regazzoni, em Long Beach, mas viu o britânico desistir na terceira volta, devido a um desentendimento com o Tyrrel do francês Patrick Depailler, que o fez chocar contra o muro. O que Hunt não sabia era que o carro não tinha tido qualquer dano e poderia ter continuado a corrida sem problemas. Em vez disso, saiu do carro e preferiu erguer o punho ameaçadoramente, sempre que o francês passava pelo sítio onde ele estava! 
Ao fim de três corridas, Lauda tinha tido um arranque de sonho, pois tinha 24 pontos em 27 possíveis, enquanto que Hunt já tinha tido dias desistências e apenas seis pontos, ficando no quinto lugar da classificação geral. Aliás, para os jornalistas e o público em geral, o grande rival de Lauda eram os Tyrrell do francês Patrick Depailler e do sul-africano Jody Scheckter, que se preparavam para apresentar um carro revolucionário: o modelo P34, com seis rodas, quatro delas na frente.

5. JARAMA, A PRIMEIRA POLÉMICA

A 2 de maio, máquinas e pilotos estavam no circuito espanhol de Jarama, que era normalmente a corrida inicial da temporada europeia de Formula 1. Durante esse mês, todas as equipas andaram atarefadas para modificar os seus carros, depois da FIA ter feito uma regra que os obrigava a ter entradas de ar não maiores do que 80 centimetros do chassis, colocando-os de lado. Foi aí que todos olharam e comentaram o novo Tyrrell, mas desconheciam que um dos pilotos presentes estava a guiar em dor: era… Niki Lauda.
Alguns dias antes, quando manobrava um trator, em Itália, perdeu o controle e virou-se, fazendo com que fraturasse três costelas. Ainda recuperava das feridas quando chegou a Jarama, mas não contou a ninguém, nem a Enzo Ferrari, nem ao diretor desportivo da marca, Daniele Audetto. Somente este soube quando ele chegou ao circuito, no fim de semana da corrida.

Apesar das dores, Lauda foi segundo nos treinos, atrás de Hunt. Na largada, saiu melhor do que o inglês e andou na frente até meio da corrida, quando ele começou a sofrer dores na zona afectada. Hunt aproveitou um momento de distração para o passar, e depois distanciar-se do piloto da Ferrari, vencendo com mais de meio minuto de avanço sobre o austríaco. No pódio, Hunt comemorava a sua primeira vitória da temporada, com Lauda a ser transportado pouco depois para o centro médico do circuito para poder ser tratado às dores nas costelas, mas poucas horas depois, após o carro ter sido escrutinado pelos comissários da FIA, estes decidem desclassificar o piloto da McLaren. A razão? Eles afirmaram que a sua asa traseira estava 1,2 milímetros mais larga do que o regulamentado. Assim, a vitória caiu no colo de Niki Lauda.

Houve algumas alterações no regulamento, relacionadas com a largura e comprimento máximo dos carros“, contou Hunt na altura. “As dimensões tinham sido ditadas com base nas medidas que os carros tinham na temporada anterior, e isso não teria sido problemático para nós, porque tínhamos o carro mais largo, logo, tínhamos definido o limite.

O problema foi que a McLaren – numa atitude no mínimo negligente – assumiu que o carro não tinha sido modificado desde então. Por essa altura já usávamos pneus mais largos, e foi isso que nos deu essa folga que detectaram“, concluiu.

Assim sendo, a marca decidiu apelar para o Tribunal de Apelo da FIA, colocando o resultado da corrida espanhola em suspenso. Mas o caso só seria discutido dali a dois meses, em julho, e enquanto isso acontecia, Lauda vencia sem problemas os GP’s da Belgica e do Mónaco, conseguindo assim vencer cinco das seis primeiras corridas da temporada, contra nenhum de Hunt. Para piorar as coisas, o britânico não acabou nessas duas corridas, ao mesmo tempo em que a equipa modificava o carro, para o colocar de acordo com os regulamentos. Para Hunt, isso foi um desastre.

Desnecessariamente, eles mexeram com a colocação dos radiadores, o que prejudicou a performance da asa traseira. Eu disse: ‘Olhem, não são esses 1,2 milimetros que estão a estragar a performance o carro. Porque é que não colocamos tudo como estava dantes de Jarama, excepto na largura da asa?‘”

Sempre tive problemas em falar com o pessoal da McLaren, convencendo-os a seguir as minhas sugestões, e foi até ao GP de França – e aí, apenas após o primeiro dia de treinos – para fazerem aquilo que lhes tinha pedido. Fizeram as modificações e no dia a seguir… fiz a pole-position! Mas por essa altura perdemos demasiado tempo – Zolder, Monte Carlo e Anderstorp – e Niki estava imparável, enquanto que nós marcávamos passo.

Ele tinha razão. Quando máquinas e pilotos estavam reunidos no circuito francês de Paul Ricard, a 5 de junho, já tinham decorrido sete provas, e a primeira vitória de um não-Ferrari só tinha acontecido na corrida anterior, o GP da Suécia. No circuito de Anderstorp, o Tyrrell de seis rodas guiado por Jody Scheckter se torna no vencedor, com Patrick Depailler a fazer a dobradinha, a primeira (e única) de um carro com seis rodas na história da Formula 1. Lauda fora terceiro, e Hunt apenas o quinto classificado. Na geral, Lauda tinha 55 pontos, contra 23 do segundo classificado, Scheckter. Hunt tinha apenas oito pontos e era… o sexto da geral. Para todos os efeitos, muitos consideravam Hunt uma carta fora do baralho na luta pelo título mundial.

Contudo, aquele 5 de julho, em Paul Ricard, torna-se no ponto de viragem que Hunt tanto queria. Ele alcança a primeira vitória do ano, na frente de Depailler, e vê Lauda desistir, vítima de um motor rebentado. Para melhorar as coisas, poucos dias depois, a FIA aceita o apelo da McLaren referente a Jarama, e volta a ter os nove pontos que lhe tinham retirado. Agora, ele têm 26 pontos, contra os 53 de Lauda, e sobe para o segundo lugar da geral. Estava de volta à luta pelo título.

(continua amanhã)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s