1976: O ano do verdadeiro "Rush" (parte VI)

(continuação do capitulo anterior)

9. MONT FUJI DEBAIXO DE CHUVA

Se alguém por acaso tivesse perdido o fio à meada deste campeonato a meio do ano, antes de Nurburgring, ficaria espantado por saber como é que Niki Lauda, no seu Ferrari, perdera toda a vantagem que tinha então, que quase todos perguntariam quando em vez de se iria renovar o título. O piloto austríaco, apesar de recuperado do seu acidente na corrida alemã, tinha de se defender de um James Hunt que vinha no seu melhor estado de forma, no seu McLaren, vencendo três das últimas quatro corridas do campeonato, e querendo alcançar o título, desse onde desse. por causa disso, a diferença estava em apenas três pontos, 68 contra 65, ainda favoráveis ao austríaco.

E para Hunt superar Lauda, o objetivo era simples: tinha de vencer. Porque caso não conseguisse, teria de esperar que Lauda desistisse ou acabasse no quarto posto, na pior das hipóteses. Já o austríaco tinha apenas de vencer ou acabar no pódio para alcançar o bicampeonato. E mesmo que acabasse fora do pódio, bastava que Hunt não terminasse como vencedor.
Com três semanas de intervalo entre Watkins Glen e Mont Fuji, ambos os lados se prepararam da melhor maneira possivel. Se no lado da Ferrari nao havia nada de especial a assinalar, no lado da McLaren as coisas eram um pouco diferentes. Caldwell decidiu ir duas semanas antes, para se ambientarem ao fuso horário, levando Hunt e alguns mecânicos, para além de um chassis. Não havia testes, e decidiram manter a mesmas táticas das corridas americanas em termos de comportamento. Hunt levou consigo um bom amigo, o motociclista Barry Sheene, que também tinha fama de “festeiro” e nos dias antes da corrida, ficou hospedado no Hilton de Tóquio, onde alegadamente foi para a cama com 33 hospedeiras da British Airways.
Caldwell conta o episódio no seu site pessoal: “James tinha estabelecido uma rotina: ele ia ao ginásio e jogava “squash” com os melhores do país. O nosso hotel era o local de paragem para a British Airways e da Air France, logo, um novo grupo de hospedeiras apareciam todos os dias. James aparecia ao pequeno-almoço e dizia o habitual: ‘Olá, sou o James Hunt’, ao que elas respondiam invariavelmente com um: ‘Sim, sabemos quem tu és!’ Portanto, estava contente.” 
Contudo, nem Caldwell, nem ninguém confirma a história das 33 hospedeiras que Hunt tinha ido para a cama. A história apareceu um 2011, quando Tom Rubython escreveu a mais extensa biografia sobre o piloto britânico, de seu nome “Shunt”, e até hoje, muitos acreditam ser apócrifa. Como o norte-irlandês John Watson, então piloto da Penske e substituto de James Hunt na McLaren quando este saiu, em 1979. Recentemente, numa entrevista ao jornal “The Scotsman”, recordou essa história:

Há aquela historieta de que ele dormiu com 33 hospedeiras da British Airways num hotel em Tóquio na semana anterior à corrida. Não sei como é que essa história aparece, porque ele não era um tipo selectivo em relação a hospedeiras dessa companhia em favor de outras como Lufthansa ou Aeroflot. Acho que existiu uma certo exagero nessa história, para ser honesto, porque mesmo para os padrões de Hunt, ir para a cama com 33 mulheres deixaria-te sem energia para guiar um carro. Acredito muitas das histórias sobre ele, mas creio que esta das 33 hospedeiras é um exagero.

A qualificação correu sem chuva, com Mário Andretti a ser o melhor, no seu Lotus, com James Hunt a seu lado. Niki Lauda estava imediatamente atrás, no terceiro posto, a observar Hunt. Contudo, o dia da corrida amanheceu com frio, chuva e nevoeiro. O Outono nipónico já tinha chegado em força e os pilotos estavam receosos com o temporal que se fazia naquela altura. Assim sendo, começaram a movimentar-se para que os organizadores adiassem ou cancelassem a corrida. Mesmo o italo-americano Andretti estava assustado:
A Lotus não era o melhor carro do pelotão, mas estava na pole-position. Coloquei aquele carro com a pista seca, não em pista molhada, e no dia da corrida estava um diluvio. Na reunião com a organização, pedimos a eles que atrasassem a partida por 30 minutos, mas não nos deram ouvidos. Niki estava a tentar convencê-los a fazerem isso. Niki e James não queriam correr.
Os organizadores não estavam para serem persuadidos. Tinham o controlo total da situação e os pilotos não. Nós não dissemos que não queríamos correr, apenas dissemos: ‘Considerem a situação existente. Está a acontecer algo fora do vulgar, mas irá passar’. As piores condições que jamais experenciei no inicio de uma corrida. Nunca tinha passado por algo assim.
Os debates, de facto, foram imensos e intensos, e a corrida foi adiada por mais de 45 minutos, para ver se a chuva amainava e o nevoeiro se levantava. Mas pouco depois, os organizadores decidiram que a corrida iria arrancar, deixando alguns pilotos insatisfeitos com a decisão. Havia uma boa razão para tal decisão: a transmissão televisiva. Nas semanas anteriores, o espaço de satélite foi comprado a preço de ouro às televisões espalhadas um pouco por todo o mundo, e cancelar tudo significaria um previsível prejuízo para toda a gente, como explicou outro dos pilotos presentes, John Watson:
O mundo inteiro estava à espera. A televisão queria transmitir o resultado de um duelo entre Lauda e Hunt [ndr: foi a primeira transmissão em direto de uma corrida de Formula 1 fora da Europa] e inevitavelmente, a corrida tinha de ir adiante [ndr: por causa do tempo de satélite]. A certa altura, a pista estava inundada, mas a corrida tinha de acontecer de qualquer maneira. Tinhas de aceitar isso.
E isso iria ter consequências no Mundial de pilotos.

10. “A MINHA VIDA VALE MAIS DO QUE UM TÍTULO”

Mesmo debaixo daquela chuva, Hunt foi igual a si mesmo, em termos de preparação. Era normal ele vomitar sempre nos momentos antes da corrida, devido à tensão acumulada, mas também tinha outros rituais. Na corrida japonesa, num canto discreto, baixou o macacão de corrida para poder urinar descansadamente, mas num local que os espectadores com binóculos pudessem ver. Quase toda a gente com esse instrumento aplaudiu ruidosamente quando acabou de fazer a suas necessidades. Pior foi uma cena testemunhada pouco depois por um jovem engenheiro chamado Patrick Head – que depois faria nome na Williams – que o apanhou na boxe errada, a… “acarinhar” uma jovem japonesa, naquele que aparentemente era outro dos seus rituais de corrida. “Pequeno almoço dos campeões…”

Pouco depois, a partida foi dada, com Hunt a disparar para a frente, tentando evitar o “spray” dos outros carros. Atrás, Lauda afundava-se no pelotão, lutando para se manter numa pista que estava demasiado perigosa para correr. Um dos pilotos presentes, o australiano Larry Perkins, conta como foram esses momentos:

Fui fazer a volta de aquecimento e entrei em ‘acquaplanning’. De lado contra um poste telegráfico, que era algo imóvel. Eu guiava na altura para a Brabham e disse: ‘Não é um bom inicio de carreira a correr para Bernie Ecclestone’. Ele era o dono da equipa, e tinha danificado seriamente o carro. Quando estava a afastar-me do local, o meu companheiro de equipa, o Carlos Pace, saiu de pista exatamente no mesmo sítio. Estava a chover pesado.

Não queria acreditar quando soube que o diretor da corrida decidiu levar a coisa por diante. Quando os carros começam a “acquaplanar” na reta, está demasiado molhado para correr. Mas esta aconteceu e eu parei após uma volta. Disse ao Bernie: ‘Eu até posso continuar, mas depois destruo o teu carro num despiste, logo, não vejo a utilidade em continuar por ali’. Não abandonei porque tinha medo, era jovem e não me preocupava com a minha segurança. Parei porque não queria estragar outro dos carros do Bernie Ecclestone. E na volta seguinte, Lauda decidiu retirar-se. E isso foi bem dramático, posso-te dizer.”

No inicio da segunda volta, Lauda entra nas boxes e sai do carro, determinado a não continuar naquelas condições. Num gesto sem precedentes, ele tinha abdicado de lutar pelo título, que depois justificaria com a seguinte frase: “A minha vida vale mais do que o título.” Contudo, em Itália, tal decisão, embora nobre e compreensivel, dadas as circunstancias, não impediu que certa imprensa o acusasse de “cobarde”. E nas voltas seguintes, para além de Lauda e Perkins, mais alguns pilotos decidiriam fazer o mesmo gesto: os brasileiros Carlos Pace e Emerson Fittipaldi, que assim protestavam sobre as más condições da pista.

John Watson têm uma explicação mais pragmática: “Houve muitas razões pelo qual ele decidiu abandonar. Os eventos no Japão mostraram até que ponto as condições eram ou não aceitáveis. Niki abandonou porque as condições eram inaceitávelmente perigosas, mas também porque ele tinha problemas em controlar um canal lacrimal, que tinha sido danificado por causa do incêndio. E também ele jogou com a situação, lançando os dados: James tinha de acabar em primeiro, segundo ou terceiro para ser campeão do mundo, e naquelas condições, não havia a garantia de que ele iria conseguir. A decisão do Niki era baseado no que aconteceu na Alemanha, mas também no seu pragmatismo. Ninguém conseguiria prever o que James iria fazer durante a corrida. Chegaria em terceiro? Ou poderia ter um acidente ou uma falha mecânica? Naqueles tempos, as falhas mecânicas eram bem mais frequentes do que agora. Não tinhas garantias de que irias acabar a corrida.

Na frente, sem que os pilotos soubessem dos eventos nas boxes, Hunt continuava na frente, com Andretti no segundo lugar e a ser desafiado pelo March do italiano Vittorio Brambilla. O italiano conseguiu passar o piloto da Lotus e até à volta 22, Brambilla perseguiu Hunt e quando o tentou assaltar a sua liderança, perdeu o controlo do seu carro devido ao piso molhado e caiu na classificação. Com isso, o alemão Jochen Mass, companheiro de Hunt na McLaren, subiu ao segundo posto e a McLaren estava a fazer a dobradinha até à volta 36, quando o carro de Mass perde o controlo e bate forte. Com isso, o Tyrrell de seis rodas guiado pelo francês Patrick Depailler herdava o segundo posto, com Andretti no terceiro lugar.

Mas a meio da corrida, a chuva pára de cair e a pista começa lentamente a secar, tornando mais suportável para os sobreviventes. Aos poucos e poucos, via-se que a pista estaria seca antes do final da corrida e os pilotos paravam para fazer a devida mudança. Mas Hunt decidiu ficar na pista, o que faria perder tempo para os seus adversários, e mais importante… posições. Na volta 62, Hunt era superado por Andretti e depois por Depailler, mas Hunt sabia que bastava apenas o quarto posto para ser campeão. Duas voltas depois, o francês da Tyrrell teve um furo e foi às boxes, fazendo com que Hunt subisse para o segundo posto. Mas logo depois… o drama. Hunt teve… dois furos e parou nas boxes, com Caldwell e um dos mecânicos a levantarem a frente do carro para poderem meter o macaco debaixo do carro e levantar própriamente para poderem fazer a troca de pneus.

Quando Hunt saiu, ele tinha caindo para o quinto lugar, que era insuficiente para conseguir o título. E faltavam apenas cinco voltas para o final, logo, começou a guiar que nem um louco para apanhar a posição suficiente para conseguir o campeonato. “Tudo o que podia fazer era fechar os olhos, carregar no acelerador e passar o máximo de carros que podia“, contou Hunt, na altura.

E assim foi: nas duas voltas seguintes, passou o Surtees do australiano Alan Jones e o Ligier do francês Jacques Laffite, e quase no final, o Ferrari de Clay Regazzoni, conseguindo o necessário terceiro posto para ser campeão do mundo. Na frente, Mário Andretti vencia a corrida, com Patrick Depailler logo atrás, e Janes Hunt completava o pódio. O britânico tinha 69 pontos, o austriaco 68. Era o novo campeão do mundo, num final épico, com contornos de milagre.

(continua amanhã)

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