Adelaide 1993: o final de uma era

Como o tempo voa: no passado dia sete de novembro completaram-se vinte anos sobre aquele GP da Austrália de 1993. Uma corrida onde tudo estava decidido, mas que toda a gente sabia que era o final de uma era gloriosa da Formula 1, e do automobilismo em geral.
Ao longo daquela temporada sabia-se quem iria ser o campeão: Alain Prost. Uma máquina do outro mundo, o Williams FW15, projetada por Adrian Newey (onde é que já vimos isto?) tinha feito regressar o piloto francês, que após ter saído da Ferrari pela porta pequena, no final de 1991, e vendo as poucas alternativas, decidiu que o melhor seria ficar a assistir das tribunas o domínio de Nigel Mansell na pista, a bordo do Williams FW14. 
Mas enquanto assistia a tudo isso, foi assegurar o seu futuro: logo em fevereiro de 1992, começou a falar com Frank Williams para ficar com o lugar em 1993, num contrato de duas temporadas. Sabendo que a Renault gostaria de ter um francês nas suas fileiras, o acordo foi veloz, mas ficou secreto até setembro daquele anos, quando foi revelado. Mansell – que tinha trabalhado com Prost na Ferrari em 1990 e detestou – ficou furioso e decidiu sair da Formula 1 com o seu titulo mundial e rumar aos Estados Unidos e a uma CART no seu auge. Bernie Ecclestone, que nunca escondeu a hostilidade por concorrência, aproveitou para retaliar e foi buscar Michael Andretti, colocando-o na McLaren, para ser “devorado” por Ayrton Senna. Porque digo isso? Bom, quando em março li a entrevista dele ao site brasileiro Grande Prêmio, pelo Renan do Couto, entendi que não gosta de falar sobre a sua passagem pela Formula 1…
Mas estou a fugir ao assunto: o “tetra” de Alain Prost foi uma linda auto-estrada, mas com mais buracos do que os que Nigel Mansell teve. Primeiro porque o FW15C não conseguiria ser a máquina que foi o chassis anterior, mas foi superior à concorrência. Depois, Damon Hill não era um parceiro que ameaçasse Prost, mas quando o filho de Graham Hill aprendeu o suficiente, começou a brilhar, a partir da segunda metade da época. E por fim, de uma certa forma, teve Ayrton Senna, que provavelmente deve ter feito a sua melhor temporada de sempre.
A temporada de Senna em 1993 é aquela que muitos sonham atualmente com Fernando Alonso: um piloto campeão com um mau chassis e um mau motor. Os alonsistas muitas das vezes olham para a temporada de 1993, porque querem provar que Sebastian Vettel é o campeão que muitos apregoam porque corre com o chassis desenhado por Adrian Newey E agarram isso como lapas desde que Alonso o disse na qualificação do GP da Índia de 2012. O problema dessa gente é que não conseguem admitir que Alonso e Vettel se equivalem, e Vettel não é o “burocrata” que Alain Prost se tinha tornado em 1993. Portanto, nesse campo, a história não se repete.
Como disse, o título de Prost foi burocrático. Fez o suficiente para ser campeão, e quando o conseguiu, no Estoril, anunciou que se iria embora de vez. Tinha 38 anos e 51 vitórias, e achava que era mais do que suficiente para ficar na história. É verdade, mas quem se recorda da corrida portuguesa, sabe que ele deixou-se ficar atrás do Benetton de Michael Schumacher, que ali conseguiu a sua segunda vitória da sua carreira. A segunda… de 91 corridas a terminar no lugar mais alto do pódio.
Contudo, quero concentrar-me na corrida de Adelaide. Nessa altura, Senna estava na mó de cima: vencera em Suzuka e tinha feito a pole-position na pista australiana, a única até então naquela temporada. Já se sabia que Senna iria sair da McLaren, após seis temporadas de excelentes serviços, especialmente naquela última, onde tinha vencido quatro corridas, uma delas, a de Donington Park, após uma primeira volta épica, colocando os Williams “no chinelo”, num carro inferior, com motor Ford cliente, pois a prioridade nesse ano era a Benetton, de um Michael Schumacher a mostrar que era um bom piloto.
A corrida não teve grande história em si: Senna foi para a frente na primeira curva – onde Pedro Lamy seria o primeiro desistente, quando foi tocado pelo Larrousse do japonês Toshio Suzuki – e aguentou as coisas até à volta 24, quando foi às boxes e perdeu o comando para o Williams de Prost. Recuperou o lugar na volta 29 e nunca mais de lá saiu até à meta. Ali, tirou uma bandeira brasileira que tinha no seu bolso e a mostrou para toda a gente ver, comemorando a sua 41ª vitória da sua carreira.
Alain Prost, contudo, não foi o único piloto que encerrou a sua carreira nesse dia: discretamente, na oitava posição, estava o Benetton de Riccardo Patrese, tinha parado na volta anterior, mas estava ali a completar a sua 256ª participação na Formula 1. Um longo caminho aquele italiano tinha percorrido desde 1977, no Mónaco, ao volante de uma Shadow. E também outro veterano pendurava o capacete naquele dia: o britânico Derek Warwick, ao volante do seu Footwork-Arrows, depois de mais de uma década de bons serviços, na Toleman, Renault, Brabham, Arrows e Lotus. E parecia que esta seria a última corrida de Andrea de Cesaris, depois de uma péssima temporada na Tyrrell, mas conseguiu uma extensão em 1994, na Jordan e Sauber, e conseguiu chegar aos 204 Grandes Prémios com um recorde: nunca venceu qualquer vez.
Nas boxes da McLaren, todos choravam: Ron Dennis, Jo Ramirez e depois, o próprio Senna. Sabiam todos que era o final de uma era dourada naquela equipa, recheada de títulos e vitórias, e também de momentos dificeis que tinham conseguido superar. Todos sabiam em Woking que uma era na Formula 1 tinha acabado. E depois no pódio, Senna, magnâmio, brindava Prost. Era o reconhecimento que todos esperavam de que Prost tinha sido o seu melhor e mais duro adversário da sua carreira. Nem sempre as coisas foram leais, mas ali, não havia inimizade ou ódio.
Quanto a Prost, parecia que o seu sentimento era de alívio: “Fiquei feliz por ter subido ao pódio. Claro que teria gostado de ganhar, mas foi dificil. Esforcei-me muito para manter a concentração. Paciência, é o fim da história. Depois da bandeirada [de xadrez], na minha volta de arrefecimento, disse para mim próprio que podia suspirar: em treze temporadas de Formula 1, nunca me feri gravemente!“, disse na conferência de imprensa após a corrida.
No dia a seguir, no jornal francês “L’Équipe”, o jornalista Francois Reste escrevia o seguinte:
Como nas cédulas de dinheiro, revelando em filigrana o rosto de uma personagem célebre, a carreira de Alain Prost teve sempre a sombra de Ayrton Senna. Desde 3 de junho de 1984, num GP do Mónaco chuvoso, que revelara o novo prodigio, o cenário da Formula 1 se articulou à volta destas duas personagens principais, que chegaram ao paroxismo da sua rivalidade em 1988 e 1989, os anos da sua co-habitação na McLaren, levados com inteligência, mas pontuados por uma severa ruptura.

Durante esses quase dez anos, os feitos de Prost não teriam talvez tido a mesma importância se Senna não existisse, e o contrário também é verdade. Será agora necessário nos habituar à ideia de um sem o outro. como um casal jamais separado. Senna sem Prost, será um pouco sem Dom Quixote sem o Sancho Pança.

Se já dá para sentir o enorme vazio que a “aposentadoria” de Prost vai fazer a partir de 1994, Senna ficará mais órfão que todos nós. Ao volante da sua Williams-Renault, o último campeão mundial ainda em atividade, vai sentir-se bem solitário, mau grado todos esses jovens ainda longe de terem atingido a sua dimensão: Schumacher, Hill, Hakkinen, e o nosso Alesi. A sua caça aos recordes de Prost, notadamente de vitórias, para o qual já só faltam dez sucessos, fará provavelmente sobressair ainda mais a ausência do seu alter ego. 
Senna sabe tudo isso. Como homem inteligente e sensível, não pode deixar de pensar nisso no momento em que derramou uma lágrima depois da chegada deste emocional GP da Austrália. este romance que acaba de chegar ao fim com o adeus de Alain Prost, e também um livro que se fecha sobre ele. Na sua nova vida que chega, haverá um pouco da sua juventude que se vai.
Aquela era, do qual jornalistas como Francois Reste, Francisco Santos e outros estavam a anunciar o seu fim naquele novembro de 1993, menos de seis meses depois, em Imola, os amantes do automobilismo em geral, e da Formula 1 em particular, iriam sentir de forma dura, inesperada e cruel, este sentimento de orfandade. Contudo, naquele fim de semana, Senna conseguiu demonstrar a Prost que se sentia órfão de um adversário, pois era com eles que conseguia se motivar. E eles já eram amigos. Acho que se algum dia Hollywood consiga fazer um filme sobre esses dois, gostaria que mostrasse essa face.
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