Um "Brutto, Sporco e Cattivo" com dinheiro

Por estes dias, Pastor Maldonado deve ser dos pilotos mais detestados pelos fãs do automobilismo. Veloz, mas demasiado agressivo, andou este último ano frustrado com o carro que teve na Williams, que lhe rendeu apenas um ponto nesta temporada. Para além disso, a sua personalidade agressiva – alguns consideram isso arrogância pura e dura – e o facto de ele ter entrado na Formula 1 com dinheiro governamental na carteira, seria de esperar que esta temporada tenha sido de tensões. Tensões que se vêm na pista, especialmente neste domingo, quando esteve envolvido no acidente com o Force India de Adrian Sutil.

O alemão reclamou vivamente da manobra do venezuelano, que aconteceu no final da primeira volta: “O que aconteceu poderia ter terminado de forma diferente. Foi a quase 300 km/h, tocando no pneu traseiro. Eu poderia ter rodado e havia cinco ou seis carros atrás. Nós queremos sair destes carros vivos. Você tem que pensar um pouco às vezes.”, disse Sutil.

Claro, Maldonado pensou de forma diferente: “Foi muito estranho. Eu não esperava aquele contato de Sutil. Estávamos lado a lado e eu estava perdendo um pouco. Ele também não me viu ou talvez pensou que já tinha me passado. Minha asa dianteira estava lá e houve o toque.” 

“Não tenho nada contra ele e é muito difícil de ver quando os carros estão lado a lado. Algumas vezes, aconteceu isso comigo também no passado, não é algo muito importante.”

Para Maldonado, Austin foi um fim de semana de pesadelo. Uma má qualificação – em contraste com o seu companheiro, Valtteri Bottas – que foi nono na grelha e oitavo na corrida – e as acusações de que os membros da Williams andaram a “sabotar” o seu carro, parece desculpa de mau pagador: “Foi um começo de fim de semana bem difícil. Ontem, nesta manhã, ainda pior na qualificação. Eu acho que nunca extraí 100% dos pneus. Acho que alguém andou a brincar com a pressão e a temperatura do meu carro, não é tão claro assim. Mas, é, falta só uma corrida, então ótimo”, desabafou.
Como seria de esperar, a Williams negou as acusações.“Nunca na Williams, na nossa experiência ou na nossa história, faríamos algo assim”, assegurou Claire Williams, a filha de Frank. 
Em termos de corrida, o venezuelano ficou num distante 17º posto, e provavelmente deve estar à espera que acabe de vez a temporada. Aliás, alguns dias antes afirmou que “estou muito feliz. Em Singapura optei por deixar a equipa e a decisão foi 100 por cento minha”. O piloto acredita que “fiz mais pela equipa do que ela fez por mim. Conseguimos uma vitória, tivemos um bom resultado no ano passado e, mesmo este ano, fizemos boas corridas. Mas não é tudo, espero algo mais na Fórmula 1”, revelou. 

Nesta segunda-feira depois do Grande Prémio, mais calmo, Maldonado veio à imprensa admitir que exagerou: “Quando chega o final da temporada, você está mais stressado, mas só porque quero algo mais e entregar 100%, mas estou limitado pelo carro. Às vezes você pode dizer mais do que deveria. Para mim, não é fácil deixar esta equipa, tenho um grande relacionamento e amigos. Claro, tem algumas pessoas que eu não gosto, mas talvez elas não gostem de mim também. É como numa família. Numa família você pode ter algumas diferenças. Agora é muito tarde e eu estou deixando a equipa, mas desejo todo o melhor a eles”, encerrou.

Ao longo deste fim de semana, quando lia as declarações dele e lia as reações aos incidentes do fim de semana, lembrei de outra personagem famosa de uma geração passada, que também tinha o seu patrocínio pessoal, que também tinha uma personalidade complicada e um pé pesado: Vittorio Brambilla.

Não era por acaso que o chamavam de “Gorila de Monza”: tinha uma estatura forte e o seu aperto de mão era de tal forma apertado que todos o temiam cumprimentá-lo ou cruzar com ele. as suas aventuras com o seu irmão mais velho, Ernesto “Tino” Brambilla, eram lendárias. Conta-se, certo dia, que os irmãos aproveitaram uma greve dos transportes em Milão para roubarem dois autocarros e os levar para Monza… sem que os passageiros se apercebessem. E lá, ambos degladiaram-se para saber quem conseguiria ser mais rápido com todo aquele “lastro”!
Vittorio era de Monza e cresceu rodeado de automobilismo. Nascera a 11 de novembro de 1937 e crescera a ser mecânico, devido à sua paixão. Andou pelas motos, mas em 1968 foi para os automóveis, onde graças a um gordo patrocinio pessoal da firma de ferramentas mecânicas Beta – que o iria acompanhar por toda a sua carreira – se tornou campeão italiano de Formula 3 em 1972… quando já tinha 35 anos. Dois anos depois, já estava na Formula 1, ao serviço da March, onde mostrou simultâneamente rapidez… e agressividade.

Era frequente as suas corridas acabarem com motores partidos ou com acidentes. Há uma história que é contada por Peter Windsor, por alturas do infame GP da Alemanha de 1976, em Nurburgring, onde numa conversa entre Niki Lauda e Ronnie Peterson, referem Brambilla nos seguintes termos:

– Não há hipótese da pista secar antes do final do treino, diz o sueco. 
– Não, nada – responde Lauda 
– Fiz muitas modificações no meu carro e se calhar vou começar a corrida amanhã sem as experimentar. E tu, quantas voltas deste? 
– Seis. 
– E? 
– Bom, ainda estou aqui… Bom, tivemos alguns problemas. Vittorio (Brambilla) saiu de pista esta manhã. E é ele que toma conta do nosso departamento de testes!
Contudo, ele era excelente numa coisa: à chuva. A temporada de 1975 tinha sido excelente para ele. Colocava frequentemente o seu March nos lugares da frente e em Anderstorp, fez a pole-position (que muitos colocam em dúvida), mas a sua coroa de glória foi uma tarde austriaca de agosto. Brambilla foi quarto na grelha, e o dia de domingo começara com sol, mas o “warm up” ficou marcado pelo despiste do March de Mark Donohue, que devido a um furo lento na curva Hella-Licht, bateu com o carro contra uma placa de publicidade e atropelou dois comissários, um deles mortalmente. O americano bateu com o capacete numa das pernas dessa placa, e sem ele saber, tinha sofrido uma hemorragia craniana. Quando detectaram já era tarde demais e acabaria por morrer dois dias depois, em Graz.

Mas enquanto esse drama acontecia, outro drama aparecia: o tempo tinha mudado fortemente e estava a chover na hora da partida. A corrida foi um duelo a três entre Brambilla, Lauda e o Hesketh de James Hunt. O italiano aproveitou uma hesitação do britânico – quando ambos dobravam o carro de Brett Lunger – para passar na frente da corrida. E esta acabou na volta 29, quando a chuva caiu ainda mais forte, a corrida foi interrompida com… a bandeira de xadrez. O italiano viu e comemorou fortemente, agitando os punhos no ar… e perdendo o controlo do carro, batendo no muro de proteção das boxes!

Não deixo de confessar ter pensado no Brambilla quando me lembro do incêndio nas boxes da Williams em Barcelona, momentos depois da vitória do venezuelano…

Claro que Brambilla nem sempre foi o “signore Disastro“. Em 1977, em paralelo com a sua temporada na Surtees, ajudou a Alfa Romeo a vencer o Mundial de Endurance, com o modelo T33. Por esta altura já tinha 40 anos, mas a carreira do italiano acabou na sua Monza natal, em 1978, quando se envolveu no acidente da largada, levando com um pneu na cabeça. O seu estado de saúde era dos mais preocupantes – ate mais preocupante que Ronnie Peterson – mas eventualmente recuperou dos ferimentos, ao contrário do piloto sueco. Voltou aos carros em 1979, ajudando a aventura da Alfa Romeo na Formula 1, mas os seus melhores dias tinham ficado para trás. A sua última corrida não foi em Monza, mas sem em Imola, em 1980.

Os dias de Brambilla terminaram de vez a 26 de maio de 2001, quando cortava a relva da sua casa, em Monza, ao sofrer um ataque cardíaco que revelou fatal.

Ora, porque a comparação com Maldonado e o título em cima deste post? Primeiro que tudo, é um filme italiano de 1976, dirigido por Ettore Scola, cujo titulo em português é “Feios, Porcos e Maus”. E segundo, existem paralelismos entre ambos os pilotos. O patrocínio que levam para todo o lado, a impressionante rapidez e a agressividade em idênticas proporções e a tendência para não serem os pilotos mais simpáticos do pelotão, embora ache que o venezuelano julgue que têm o direito divino de correr, só porque têm 50 milhões de dólares na carteira, vindos do estado venezuelano. E ao dizer todas aquelas palavras feias à Williams, parece que ele está a ser mal agradecido pela possibilidade de eles lhe terem dado um chassis para correr na Formula 1.

Ainda tenho esperança de que Maldonado ganhe juízo, como ganhou este ano Romain Grosjean. Aliás, estes dois têm algo em comum: tiveram filhos este ano. O francês tornou-se numa pessoa bem mais calma – e isso repercute nos pódios que ele teve nesta temprada – e a reputação do francês, que antes era considerado como um perigo, é agora bem mais alta. Em suma, ele ganhou um cérebro. Talvez seja altura de Maldonado ganhar o seu e evitar que seja conhecido como um “pay driver” ou “O Brutamontes de Caracas“… 

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