Sobre os novos regulamentos da FIA

No inicio do século XX, os anarquistas espanhois costumavam dizer a seguinte frase, quando recebiam novidades: “Hay gobierno? Soy contra!” Mais do que seguirem ideologias, muitas das vezes as novas regras não são do agrado das pessoas, não só porque alteram alguma ordem estabelecida, mas também porque não se vê um beneficio óbvio nas pessoas ou nas instituições que se seguem. E para piorar as coisas, há situações em que se aplica outra frase feita: “pior a emenda do que o soneto“.

As alterações anunciadas esta tarde em Paris, à saída da reunião da FIA, foram surpreendentes, de uma certa maneira. Se a ideia dos números fixos, dados aos pilotos, para os usarem ao longo da sua carreira, era bem acolhida por todos, apareceram mais decisões que ninguém estava à espera: um teste na semana que vêm, no Bahrein, e que a partir do ano que vêm, a pontuação na última corrida do ano seria a dobrar, para dar mais emoção ao campeonato.
Pessoalmente, os números fixos são bons, mas deveriam ter feito uma ressalva: o numero um deveria ser obrigatório usar pelo campeão do mundo, porque pela experiência que vejo na MotoGP e na IndyCar, o numero é raramente usado pelos campeões, que preferem usar os seus números pessoais do que exibirem esse numero nos seus chassis. Mas mais polémico ainda, e do qual estou terminantemente contra, têm a ver com a história da última corrida do ano, que em 2014 será em Abu Dhabi. É que a partir de agora, a corrida terá o dobro de pontos, quer para os pilotos, quer para os Construtores. E tudo para elevar o nível e a emoção do campeonato, que todos reconhecem estar algo aborrecido com os quatro titulos seguidos de Sebastian Vettel.

Bem sei que 2014 será um “ano novo, nova era“. Mas se alterações nos carros é uma coisa, alterar a pontuação é outra. E tenho a sensação de que isto é uma distorção. Melhor: é uma palhaçada. A FIA enterra a cada ano que passa a tradição, em nome da “modernidade” e em vez de aproximar os fãs, provavelmente está a afastá-los. “Agradar a gregos, afastando os troianos” poderá fazer com que não se conquiste os gregos e coloque os troianos em guerra uns com os outros.

E podia ser pior: Helmut Marko afirmou hoje no jornal “Sport Bild” que a proposta inicial era de que as últimas quatro provas tivessem pontos a dobrar. Com esta revelação, chego à conclusão de que o que Jean Todt quer é uma “nascarização” para conquistar os americanos. Mas essa “obsessão” com mais de 30 anos esperava mais do lado de Bernie Ecclestone, não do presidente da FIA. Esse “winner takes all” só para que apareçam mais algumas dezenas de milhões de dólares do “Tio Sam” para ter mais dois pontos nas audiências televisivas, poderá ter sido um “prego no caixão” da Formula 1. É que os tradicionalistas vão odiar a ideia, e vão ligar isto às mais recentes regras que têm moldado a categoria máxima do automobilismo nos últimos anos, “em nome do espectáculo”.

Todos nós sabiamos que a Formula 1 não mudou de regras durante muito tempo, e isso ajudou a moldar toda uma geração. O sistema de pontos foi o mesmo durante 42 anos, exceptuando uma pequena alteração em 1990, quando se deu mais um ponto para o vencedor e se eliminou o limite de corridas a pontuar, mas a partir de 2003 é que as coisas sofreram uma enorme alteração: primeiro, o sistema de pontuação até ao oitavo classificado, e depois, em 2010, até ao décimo posto. Para além disso, temos artificios como o KERS e o DRS, com a respectiva asa móvel, tudo para facilitar as ultrapassagens. É certo que a Formula 1 chegou a uma altura em que as corridas eram aborrecidas, e contávamos as ultrapassagens em corrida pelos dedos de uma mão, mas passamos da “seca” para a chuva intensa, quase diluviana.

Em suma, nos últimos anos assistimos à vulgarização de algo que era precioso e que demorou anos a construir. Uma personalidade única que atraiu milhões de fãs um pouco por todo o mundo. A FIA está a comportar-se como aquele rapaz que conhece e se apaixona por uma rapariga que não lhe liga alguma, mas que faz tudo para a conquistar, tentando ser o mais parecido com ela, alienando os que são mais próximos, a sua familia e os seus amigos. E muito provavelmente poderá estar a encarar essa mulher como um “naco de carne com seios e rabo”. Se for assim, temo que estejamos a caminho do fim da Formula 1 que conhecemos.

E isso não é bom nos tempos que correm. Sabendo que Bernie Ecclestone vive provavelmente os seus últimos dias na Terra e sabendo a possibilidade de uma discussão, até de um potencial cisão entre as equipas, que nunca se uniram entre si, temo que a Formula 1 esteja a viver os seus últimos dias de glória. Espero estar enganado. 

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