No 45º aniversario de Michael Schumacher

Albert Einstein disse certo dia, no meio dos estudos sobre a Teoria da Relatividade e numa tentativa de compreender o Universo, que “não queria acreditar que Deus jogue aos dados“. Uma geração mais tarde, outro cientista, Stephen Hawking, demonstrou isso mesmo, ao colocar uma série de esferas alinhadas perfeitamente, como se fosse um desfile militar, e retirou cinco delas desse alinhamento. O que aconteceu a seguir provou isso mesmo: graças ao magnetismo, esse alinhamento foi desfeito e elas começaram-se a juntar, num acaso. A conclusão simples é esta: se a perfeição existisse, nós não existiríamos. E quando digo “nós”, falamos do Universo, tal como conhecemos.

O Acaso, por ser assim mesmo, causa injustiças aos nossos olhos. Não poupa ninguém, seja ele rico ou pobre, famoso ou anónimo. Não podemos contar que a nossa vida seja longa ou aborrecida, porque a sua fragilidade vêm ao de cima, quando menos esperamos. Soube disso pessoalmente, e da pior maneira, há quase 16 anos, quando um mero apêndice rebentado se tornou numa peritonite septicémica. Saber que estive a dias de morrer não é agradável, mas estranhamente reconfortante e pacifico. Para recuperar, foi precisa muita paciência, pois somente seis semanas depois é que saí do hospital.
Mas falar desse acaso para explicar o que se passou a Michael Schumacher. Hoje é o dia do seu 45º aniversário natalicio, e ele está nas bocas do mundo nestes dias pelas piores razões: como sabem, no passado domingo, na estação de ski de Meribel, nos Alpes franceses, ele escorregou e bateu com uma pedra, ficando com uma grave fratura craniana e estando agora em coma. Os médicos do hospital universitário de Grenoble conseguiram salvar-lhe a vida “in extremis”, e agora está a ser fortemente vigiado e medicado, para evitar que o seu cérebro lesionado se deteriore e tenha lesões permanentes.

Eles estão expectantes, tal como todos nós, para ver se ele sobreviverá. Mas o mais interessante, em termos pessoais, é ver como é que Schumacher evoluiu aos meus olhos, pois tive o previlégio de assistir a toda a sua carreira. Lembro-me bem daquele fim de semana do GP da Belgica, quando um jovem desconhecido para a maioria de muitos, surpreendeu toda a gente num Jordan do qual nunca tinha andado muito. Antes, acompanhava-o dos seus feitos na Endurance, a bordo de um Sauber-Mercedes, ao lado de Karl Wendlinger e de Heinz-Harald Frentzen, e pensava que provavelmente essa gente poderia ser a geração que iria colocar a Alemanha no mapa automobilístico, especialmente na Formula 1.

Acho que toda a gente sabe o que é, hoje em dia, mas em 1990, a Alemanha tinha um palmarés muito pequeno. Nunca tinha tido um campeão do mundo e só tinham conseguido três vitórias na Formula 1, apesar da Mercedes e da Porsche. E ainda se sentia a falta de Stefan Bellof, um piloto do qual todos sabiam do seu talento, mas tinha desaparecido precocemente, em setembro de 1985.

Depois vi o que fiz na Benetton. De jovem esperança de 1992 à grande certeza nos anos seguintes, e vi também a sua faceta de vencedor a qualquer custo, e até que ponto ele era capaz de ir. E à sua aparente insensibilidade daquela tarde de maio de 1994, em Imola, comemorava a sua terceira vitória consecutiva, enquanto via o seu maior rival a agonizar na cama de um hospital. Talvez mal informado ou entendeu mal, aquele gesto foi sentido e muitos cavaram um ódio contra ele. Rei morto, rei posto, a Formula 1 dividiu-se entre os que admiravam Schumacher e os que odiaram Schumacher.

E poucos meses depois, em Adelaide, quando impediu Damon Hill de o passar, batendo com o seu carro, ser a seu favor fora da Alemanha significava remar contra a maré, fazer parte de alguma confraria satânica, porque para o resto do mundo, ele parecia ser a encarnação do Diabo. A grande ironia é que muitos dos que o odiavam eram “sennistas”, desconhecendo que tinha aprendido muitas dessas manobras, bem como o seu método de trabalho… do próprio Ayrton Senna. E ninguém se lembrou, em Adelaide, da manobra que Senna fez contra Alain Prost em Suzuka, quatro anos antes.

Depois de ganhar tudo na Benetton, decidiu aceitar o maior desafio de todos: transformar a Ferrari numa equipa campeã do mundo. Tinha encontrado as pessoas certas para esse trabalho na Benetton: Ross Brawn, Rory Bryne. E na Scuderia tinha outros: Jean Todt e Luca di Montezemolo. Aos poucos, a equipa se moldou em torno dele, para alcançar o que escapava desde 1979: o título mundial de pilotos. Quase o conseguiu em 1997, mas usou a mesma manobra, aquilo que todos temiam na altura. Mas o tiro saiu-lhe pela culatra, e a FIA não lhe perdoou: desclassificou-o do mundial, retirando-lhe o vice-campeonato.

Mas com o tempo, amadureceu. E o trabalho compensou: em 2000, depois de ter perdido meio ano no seu maior acidente automobilistico até então, em Silverstone, deu finalmente os títulos que perseguiam. E ninguém sabia, mas ali começava uma era de dominio dos carros vermelhos de Maranello. E mesmo em tempos de dominio, não escapava à polémica. Especialmente no GP da Áustria de 2002, quando Jean Todt ordenou a Rubens Barrichello que cedesse a vitória ao seu companheiro de equipa. No meio do sucesso imenso, aquele gesto soou a arrogância. Podem aceitar o circo, mas não perdoam uma manipulação tão descarada dos resultados.

Nessa altura, apareceu uma nova geração, pilotos que cresceram a admirá-lo e começaram a desafiá-lo. Kimi Raikkonen e Fernando Alonso foram dois deles. Sem ter de lidar mais com Jacques Villeneuve, Mika Hakkinen ou David Coulthard, esta nova geração estava mais esfomeada de vitórias, e conseguia acompanhá-lo, e batendo-o. Quando o piloto espanhol venceu o título de 2005, a Formula 1 inteira respirou de alivio ao saber que por fim, o alemão tinha um rival. Mas esqueciam-se que ele já tinha 36 anos e já tinha mais atrás dele do que pela sua frente. Contudo, a temporada 2006 foi uma das mais emocionantes.

Schumacher já sabia que era a altura de ir embora, mas decidiu que queria ir em estilo, com o oitavo título mundial. Alonso, mais jovem e mais fresco, deu o seu melhor para revalidar o seu título e ao longo dessa temporada, o duelo foi emocionante, com o piloto da Renault a levar de vencida, depois de no Japão, Schumacher ter tido uma rara quebra de motor. O acaso fazia a sua aparição, no momento errado, na hora errada. A sorte virara-se contra si, e não era a despedida que queria ter, semanas depois de ter anunciado em Monza que os seus dias de pilotagem iriam chegar até ao fim.

Mas no Brasil, a última prova do ano, decidiu demonstrar a sua classe. Não se desmoralizou com os azares – quebras no carro, um pneu furado, uma penalização – e dançou na pista apenas como os campeões, ou os “eleitos” dançam. Como Fangio em Nurburgring ou Senna em Donington Park, em exibições que ficaram para a eternidade. Ficando no fundo do pelotão por duas vezes e acabando no quarto lugar final, passando muito dos “jovens lobos”, incluindo Kimi Raikkonen. E no final, se todos aplaudiam Fernando Alonso, todos aplaudiam mais Michael Schumacher, numa exibição inesquecivel, aquela que todos queriam contar um dia aos netos.

Schumacher partiu então para a reforma. Engraçado era que ele nunca quis fazer outras competições, apenas uma outra vida. Adorava karting, mas não interessava uma carreira nas Américas, andar na Endurance. Pelo contrário, foi fazer motociclismo, tentando ter uma segunda carreira. Não foi muito longe, especialmente depois de uma violenta queda em 2009.

Contudo, quando a Mercedes voltou em 2010, depois de comprar a Brawn GP, perguntou a ele se queria regressar à ativa e ajudar a equipa que lhe deu a sua oportunidade de ser piloto profissional. Ele aceitou e a noticia do seu regresso foi uma das mais comentadas de então. E todos perguntavam na altura: seria um Niki Lauda ou um Alan Jones? Iria tentar um oitavo titulo mundial, contra uma nova geração de pilotos, alguns deles ainda estavam nos seus berços quando ele se estreara, naquela tarde de agosto de 1991, em Spa-Francochamps?

Nesse regresso, Schumacher sentiu o peso dos anos. Era batido constantemente pelo filho de Keke Rosberg, Nico. E tinha algumas boxes mais abaixo outro jovem compatriota seu, que um dia entregou um troféu de karting e lhe incentivou para que continuasse a correr. Era Sebastian Vettel, que em 1991, ainda não tinha idade para ir à escola. E ali estava, na grelha de partida de uma Formula 1 que estava com fome de bater recordes de precocidade. E nesse regresso, todos viram que o anteriormente “temivel” e “imbatível” Schumacher era um piloto como todos os outros. Parecia que tinha descido à terra, um piloto esforçado, que cometia erros e terminava corridas fora dos pontos. Era um mundo diferente, aquele que se encontrava agora. Não se podiam mais testar carros como se testava antes. Não havia mais o reabastecimento e as estratégias geniais combinadas entre ele e Ross Brawn. Viam-se algumas faíscas da sua genialidade, mas eram cada vez mais escassas. Apenas subiu ao pódio por uma vez, neste seu regresso.

O tempo, por fim, tinha-lhe alcançado. Mas paradoxalmente ganhou um capital de simpatia que antes não tinha. Parecia ser um piloto mais sábio e mais experiente, e mais simpático. Certamente havia uma ou outra polémica aqui e ali, que fazia lembrar os velhos fantasmas, mas agora os adeptos viam que era um piloto mais humano, não era a máquina temivel da década passada, que parecia que tinha “matado” a Formula 1 da sua competitividade. E no final de 2012, exausto, decidiu que era a altura de se ir embora, e desta vez, de vez. Depois de 305 Grandes Prémios, 91 vitórias, 68 pole-positions e sete títulos mundiais. O homem de todos os recordes que interessam ter.

O Universo nos tinha dado um homem excepcional, que decidiu ficar por aqui tempo demais, é verdade, mas no deu estranhamente – esse Deus que joga aos dados – uma faceta redentora a uma personagem que uma geração inteira tinha aprendido a detestar. Agora, naquelas que deverão ser as horas e dias mais decisivos da sua vida, noutro estranho acaso de estar no lugar errado, na hora errada, e a fazer as manobras erradas, vemos todo um mundo unido numa estranha unanimidade, perdoadas as polémicas do passado. Porque os verdadeiros adeptos não o viam como inimigo, mas sim apenas um adversário. Que aprendemos a respeitar e a admirar. E sentimos fortemente o seu sofrimento e o da sua família, que reparam agora que a vida é frágil e num momento, tudo muda.

Feliz Aniversário, Michael Schumacher. O nosso maior presente é que superes este momento. Todos estamos a torcer por ti.

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Um pensamento sobre “No 45º aniversario de Michael Schumacher

  1. Ainda não li todo…

    Mas…

    “A grande ironia é que muitos dos que o odiavam eram “sennistas”, desconhecendo que tinha aprendido muitas dessas manobras, bem como o seu método de trabalho… do próprio Ayrton Senna. E ninguém se lembrou, em Adelaide, da manobra que Senna fez contra Alain Prost em Suzuka, quatro anos antes.”

    Schumacher foi recorrente nessa estratégia: Hill e Villeneuve (com resultados distintos).

    Para odiar esses estratagemas nem precisava ser sennista, bastava ser esportista.

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