A Can-Am de Jackie Stewart

Nos anos 60 e 70, era frequente os pilotos de Formula 1 fazerem participações noutras modalidades automobilísticas. Fossem para representar a mesma marca onde corriam na Formula 1, ou porque o dinheiro era curto e tinham de complementar noutras competições, eles enriqueciam a lista de inscritos em coisas que iam desde a Endurance até às 500 Milhas de Indianápolis ou as 24 Horas de Daytona. Até coisas como a Formula 5000 ou a Formula 2 estavam recheadas de pilotos de Formula 1 que, podendo não contar para o campeonato, enfrentavam a concorrência de “jovens lobos” que os faziam passar por períodos complicados.

Jackie Stewart não foi excepção. Correu em Indianápolis nos seus tempos da BRM, alcançando boas prestações na edição de 1966 – foi o Rookie do Ano – e em 1970 era para correr nas 24 Horas de Le Mans ao lado de Steve McQueen num Porsche 917K da Vyer Team, mas no final, a sua participação foi rejeitada devido ao alto preço do seguro que os estúdios pagariam, pois na altura, o ator estava a filmar “Le Mans”.
Para além de Endurance e IndyCars, o escocês andou na Can-Am. Primeiro em 1970, conduzindo o icónico Chaparral 2J, um carro que tinha tanto de radical como de pouco fiável. E em 1971, no ano do seu bicampeonato com a Tyrrell, guiou um Lola T260, um carro desenhado especialmente pela marca para tentar derrotar os dominantes McLarens, que desde 1968 faziam algo que a certa altura se chamou de “The Bruce and Denny Show”, dado o domínio por parte dos pilotos de então, Bruce McLaren e Dennis Hulme.

Em 1971, McLaren tinha morrido, e ele fora substituído pelo americano Peter Revson, com Hulme como coadjuvante. A Can-Am era altamente popular devido ao seu elevado “prize-money” e à capacidade única de discussão entre os pilotos de Formula 1 e os da IndyCar, que se duelavam ali, para ver quem se saia melhor. Nesse ano, depois da experiência do escocês com o Chaparral, tinha sido contactado por Carl Haas, representante da marca nos Estados Unidos, e que iria ficar com o chassis, pois tinha o forte apoio da tabaqueira LM.

O T260 era um carro radicalmente novo, mas muito bom. Contudo, em termos de beleza, não era o mais bonito. Em vez de ter linhas fluidas, era mais um “caixote” como o Chaparral ‘sucker car’ desenhado por Jim Hall e que tinha guiado em Watkins Glen, em 1970”, contou o escocês ao jornalista do Moorsport, Gordon Kirby.
Stewart não teve muito tempo de habituação ao Lola. Um teste de pré-temporada em Silverstone, onde choveu na maior parte do tempo, foi o que conseguiu. Após isso, o carro foi embarcado para o Canadá, onde se estreou no circuito de Mosport, que também por esses dias era a habitual paragem da Formula 1. 
Apesar do pouco tempo de teste, Stewart fez o seu melhor e alcançou a pole-position, batendo os McLaren de Hulme e Revson. Na partida, o escocês foi superado pelo neozelandês, mas no final da décima volta, quando Hulme teve de lidar com tráfego, Stewart aproveitou a hesitação e o passou. Parecia que ia a caminho da vitória, mas a meio da corrida, um rastro de óleo começou a surgir do seu carro e a transmissão quebrou-se pouco tempo depois. Assim, o escocês viu nas boxes a dobradinha Hulme-Revson, e os McLaren a dominar a corrida.
Mal eles sabiam que aquele Lola iria dar-lhes dores de cabeça ao longo daquela temporada. Tanto que a corrida seguinte era no difícil circuito de Mont-Tremblant, no Quebec canadiano. Duas semanas depois daquela manifestação de desafio, Stewart levou a melhor, subindo ao lugar mais alto do pódio e dando a Carl Haas a sua primeira vitória como construtor. “Saint-Jovite [local onde fica o circuito] foi uma grande vitória”, comentou.
Depois do Canadá, seguiu-se os Estados Unidos, mais concretamente o circuito de Road Atlanta, no fim de semana de 10 e 11 de julho. Nos treinos, Stewart foi o terceiro na qualificação, mas na corrida, ele perseguiu os McLaren até os ultrapassar. Quando os fez, começou a distanciar-se e parecia que iria ganhar… até que um furo lento o fez ir às boxes. Reparados os estragos, quando voltou à pista, estava no fundo do pelotão, a três voltas dos lideres. Enraivecido, começou a subir na classificação, fazendo a volta mais rápida pelo meio. Mas isso fez esforçar demais o carro, e teve de voltas às boxes para arrefecer os travões, que tinham sobreaquecido. Voltou à pista, mas o carro estava a desfazer-se aos bocados. Ela acabou quando um dos amortecedores traseiros se quebrou.

Com o resultado de 2-1 a favor dos McLarens, a Can-Am seguiu para Watkins Glen, a 25 de julho.O escocês colocou o carro na pole-position, e na corrida, ele liderava com algum avanço até que teve novo furo. Perdeu ali uma volta para Peter Revson, e tentou recuperar o tempo perdido ao regressar à corrida. Mas foi em vão: a transmissão cedeu e ele se viu obrigado a desistir.

Por esta altura, Stewart tinha outras dificildades para líder: estava doente, com monocelulose, e isso o debilitava imenso, num ano em que voava dos Estados Unidos para a Europa para fazer ambos os campeonatos: Formula 1 e Can-Am. “É uma doença debilitante que te suga toda a tua energia. Não conseguias dormir e ficavas exausto. Era arrasador”, recordou.
Recuperado, ele correu a prova de Mid-Ohio, onde aí, ele aproveitou os problemas dos McLaren para vencer a sua segunda corrida do ano, mas a vantagem já pertencia aos carros laranjas, e parecia que eles iriam vencer mais uma vez o campeonato, o que veio a acontecer. Stewart não venceu mais corridas na temporada, mas conseguiu dois segundos lugares, em Edmonton e em Laguna Seca, onde conseguiu intrometer-se entre os carros de Hulme e Revson. Na prova final, em Riverside, não chegou ao fim.
Apesar de não estar em pico de forma durante boa parte do ano, a temporada de Stewart foi ótima: dominadores na Formula 1, as duas vitórias obtidas na Can-Am deram-lhe o terceiro lugar do campeonato, com 96 pontos, não muito longe dos McLaren dominadores de Revson (campeão com cinco vitórias e 142 pontos) e Hulme (segundo, com três vitórias e 132 pontos). E foi o único a quebrar o domínio dos carros laranja nas pistas norte-americanas.

Mas em jeito de conclusão, ele referiu que aquele carro foi o mais difícil de guiar de toda a sua carreira: “O carro tinha uma distância entre-eixos muito curta e era muito difícil de guiar. Em comparação com os McLarens, era um monstro e tinhas simplesmente de saber como o lidar. Em circuitos velozes como o de Riverside, era muito complicado, porque não sabias como é que se iria comportar”, afirmou.

Contudo, as suas prestações foram mais do que suficiente para que a McLaren atirasse um contrato para a temporada de 1972 da Can-Am. E ele aceitou. 
Fui abordado pela McLaren no sentido de guiar para eles na temporada de 72 da Can-Am. Testei o carro deles e comparado com o nervoso Lola, era um carro de passageiros, calmo e confortável. Com o Lola, parecia estar a um segundo de algum grave acidente. Assim sendo, assinei para eles e foi algo triste ter de telefonar para Haas e dizer que não iria mais trabalhar com ele, pois tinha sido generoso e amigável. Mas queria vencer, e a McLaren tinha o carro certo. Mas depois, a saúde me pregou mais uma partida [teve uma úlcera] e quando fiquei curado, decidi concentrar-me na Formula 1.
Quanto a Carl Haas, só tem elogios para o profissional e para a sua contribuição para o automobilismo americano. “Sempre fomos amigos, e continuamos amigos até hoje. A minha decisão poderia ter afetado a nossa amizade, mas como tinha uma grande equipa e muito unida, e como sabia das dificuldades que passei, compreendeu a minha decisão. Foi uma boa experiência ter corrido com ele. É um vencedor. As suas passagens pela Can-Am, Formula 5000 e IndyCar foram sempre vitoriosas, com as suas equipas e os seus pilotos. Foi um dos promotores do automobilismo de circuito nos Estados Unidos. É um simbolo, ele representa a América aos olhos de muitos europeus. E tive um enorme orgulho de ter guiado para ele”, concluiu.

Cevert e Stewart em filme? Esqueçam

Na altura não vi isto porque estava de férias, mas sabia desde há algum tempo que havia planos por um filme sobre Francois Cevért e Jackie Stewart, pilotos da Tyrrell entre 1970 e 1973. Esta tarde, enquanto via um artigo na Autosport britânica sobre pilotos de ficção, uma frase despertou a minha curiosidade, e fui espreitar. Acabei por descobrir que, há seis meses atrás, os planos para um filme sobre ambos os pilotos ficaram adiados “sine die” porque Hollywood queria meter o bedelho e “falsificar a história”.

O jornal Daily Mail escreveu uma noticia a meio de junho, onde conta que os planos para um filme entre os dois pilotos foram cancelados porque um dos produtores, William Pohlard, queria meter um “affaire” entre ambos os pilotos com Helen Stewart, algo que ela mesma vetou. “Seria um grande filme, mas eles queriam dizer que eu tive um affair com François Cevért… Eu não os deixaria fazer isso, porque não era verdade. Seria provavelmente a parte mais empolgante, se fosse verdade. Mas não era. François era um grande amigo meu e de Jackie, e eles queriam criar uma situação a respeito disso, o que é de doidos”, contou.
François era descrito como um dos homens mais “sexys” de França naquele período. Divertimos imenso ao seu lado, ele adorava as crianças, amava a todos que estivessem connosco e tinha uma grande namorada. Mas Jackie e eu somos namorados de infância e estamos casados há 50 anos. Eu o conheci quando tinha 16 e casamo-nos quando tinha 21. Temos dois filhos e nove netos juntos. De qualquer forma, eles não vão fazer o filme. Esta foi a única razão por ele ter sido paralisado – o que parece um pouco estúpido para mim, visto que essa história nem era verdadeira, em primeiro lugar”, concluiu.
Já agora, o filme iria custar à volta de vinte milhões de libras – uns 30 milhões de dólares. O que vai acontecer, entretanto, não sei, mas na altura, falava-se que o projeto continuava em desenvolvimento. Em Hollywood há um nome para isso: “development hell“. Ou seja, fica adiado para as calendas gregas.

Mas creio que, a parte disto, Hollywood está a gostar de automobilismo. Tivemos “Rush”, dois documentários – “Senna” e “1” – e em breve, poderemos ver Tom Cruise e – quem sabe – Brad Pitt num Ford GT40 em Le Mans, graças a “Go Like Hell”. Vão ser tempos interessantes.

Formula 1 em Cartoons: Japão (Riko Cartoon)

O cartoon que Frederico Ricciardi (“Riko”) fez para o F1 Passion.it, onde Sebastian Vettel está com muita pressa para sair do “clube dos tricampeões” – tem apenas 26 anos – e juntar-se a Alain Prost no “clube do tetra”. 
Apesar de pedir desculpas aos que lá estão no clube, suspeito que poderá não ficar lá durante muito tempo…

Formula 1 em Cartoons: Japão (Riko Cartoon)

O cartoon que Frederico Ricciardi (“Riko”) fez para o F1 Passion.it, onde Sebastian Vettel está com muita pressa para sair do “clube dos tricampeões” – tem apenas 26 anos – e juntar-se a Alain Prost no “clube do tetra”. 
Apesar de pedir desculpas aos que lá estão no clube, suspeito que poderá não ficar lá durante muito tempo…

Youtube Formula 1 Classic: GP da Alemanha de 1973, na integra

Hoje passa-se exatamente 40 anos sobre esta corrida. Num Nurburgring atipicamente com céu limpo, e uma semana depois do acidente que matou Roger Williamson, na Alemanha, máquinas e pilotos estavam no temivel Nordschleife para fazer 14 voltas à pista. Jackie Stewart era o lider do campeonato – especialmente após a sua vitória em Zandvoort, que tinha-o elevado para 26 vitórias, batendo Clark – e tinha feito a pole-position com o Lotus de Ronnie Peterson a seu lado. Atrás dele estavam o outro Tyrrell de Francois Cevért e o belga Jacky Ickx, que, sabendo que a Ferrari iria se ausentar da corrida alemã, pediu para ser libertado do seu contrato e correr no terceiro carro da marca.
Como já disse, por essa altura, Stewart tinha batido o recorde de Clark, mas estava a caminho de conseguir mais vitórias, para ver se alcançava o seu terceiro título mundial, ainda mais quando Emerson Fittipaldi estava em fase de recuperação de um acidente que tivera em Zandvoort, daí ele ser apenas o 14º na grelha. Em contraste, o jovem austriaco Niki Lauda surpreendia toda a gente ao ser o quinto na grelha com o seu BRM. Nada mau para terceiro piloto…
O resultado é sabido: Stewart chegou às 27 vitórias, numa corrida superior dos Tyrrell, quer com Stewart, quer com Cevért, que tinham feito a terceira dobradinha do ano, segunda consecutiva. A acompanhá-los no pódio ficara Ickx, o vencedor do ano anterior e que se dava otimamente no Nordschleife. E nos restantes lugares pontuáveis, todos brasileiros: o Surtees de José Carlos Pace, o Brabham de Wilson Fittipaldi, na frente do Lotus de Emerson Fittipaldi.
Se quiserem ver a corrida na integra, como foi aquela tarde de há quarenta anos, sente-se, vá buscar umas pipocas e assista ao video, assim pode colmatar a ausência de corridas e ver a cores como eram as coisas há muito tempo. 

Quando os números se igualam (Parte 1)

No próximo domingo, em Budapeste, irá decorrer o GP da Hungria, a décima corrida do Mundial de Formula 1 de 2013. Mas esta corrida já vai ficar na história da Formula 1 por ser por ser o 888º Grande Prémio nos 63 anos de história que já leva esta competição. Sendo assim, é a oitava vez que um Grande Prémio tem a particularidade de juntar três números iguais.

Com essa particularidade em mente, comecei a pensar o que se passou de relevante nos restantes sete Grandes Prémios onde os mesmos números se juntaram? Vim a descobrir que, entre outras coisas, assistiu-se a uma decisão do título mundial, a uma estreia nas vitórias de um piloto, um regresso e algumas boas corridas disputadas em três continentes. E em dois casos em particular, na mesma pista.
111 – GP da Africa do Sul de 1962
A primeira corrida onde o mesmo numero se junta por três vezes é logo o mais decisivo dessa temporada, num duelo entre Graham Hill, no seu BRM, e Jim Clark, no seu Lotus 25, que ficou para história como o primeiro monocoque na história da Formula 1. Também esta foi a corrida de estreia da Africa do Sul no Mundial, e aconteceu quase… em 1963, dado que correu-se a 29 de dezembro desse ano. Nessa altura, Hill tinha um avanço de nove pontos sobre Clark e era virtualmente o campeão, mas o escocês tinha uma chance muito remota, se Hill desistisse e o seu adversário vencesse.

Debaixo do verão austral sul-africano, Clark faz a pole-position, na frente de Graham Hill e Jack Brabham, que já corrida com o seu próprio chassis. A corrida foi essencialmente uma perseguição, com Hill a ir atrás de Clark, sabendo que bastava isso para garantir o seu campeonato. Contudo, na volta 62, as coisas começam a complicar para o escocês, porque têm uma fuga de óleo, que o obriga a ir às boxes. Os mecânicos tentam reparar a fuga, mas não conseguem e Clark é obrigado a abandonar.

Com isso, Hill é o campeão do mundo, mesmo que não termine a corrida. Contudo, ele chega ao fim, e como vencedor, não só se tornando campeão do mundo, como deu á BRM o seu primeiro título mundial de Construtores. A acompanhá-lo no pódio foram os Cooper de Bruce McLaren e do local Tony Maggs. A fechar os pontos estavam o carro de Jack Brabham e os Lotus de Innes Ireland e de outro piloto local, Neville Lederle, que conseguia aqui o seu primeiro e unico ponto… na sua corrida de estreia!

222 – GP do Brasil de 1973

Essa foi a segunda corrida da temporada desse ano, e foi a estreia do Brasil na Formula 1, no circuito de Interlagos, um veloz e extenso circuito na cidade de São Paulo. Corrido a 11 de fevereiro desse ano, debaixo do calor austral, nas horas antes da corrida, os espectadores tiveram de ser regados pelos camiões dos bombeiros para aplacar o calor que se sentia.
Naquele ano, a torcida local queria ver vencer o seu filho mais ilustre, Emerson Fittipaldi, que tinha vencido o campeonato do mundo no ano anterior, guiando um Lotus 72. O seu maior rival era o escocês Jackie Stewart, que naquele ano já andava a bordo do Tyrrell 006. Fittipaldi tinha vencido a primeira corrida do ano, quinze dias antes, na Argentina, e esperava repetir a vitória para tentar se distanciar de Stewart.
E assim foi: apesar de Ronnie Peterson ter conseguido ali a pole-position – a primeira da sua carreira – Fittipaldi largou melhor e levou o seu carro até à meta como vencedor, numa corrida sem grande história. A acompanhá-lo no pódio esteve Stewart e o McLaren de Dennis Hulme, enquanto que nos restantes lugares pontuáveis estavam os Ferrari de Jacky Ickx e Arturo Merzário, e o BRM de Clay Regazzoni.


(continua amanhã)

ADN80: o novo projeto editorial

Por fim, o dia chegou. A partir de hoje, está online um novo tipo de projeto jornalistico. A ideia do ADN80 tem a ver com um novo tipo de publicação, com artigos longos, feitos por uma geração, a que nasceu entre o final dos anos 70 e o inicio dos anos 80. O mentor do projeto é João Pedro Pereira, jornalista do Público, e ele me convidou no mês passado para participar nele. Sendo ele um colega meu da faculdade, aceitei de imediato, sabendo ele que osa meus artigos de automobilismo seriam do interesse das pessoas.
Comecei com algo interessante, que foi o de falar sobre a temporada de 1968, aquela onde em meros quatro meses, quatro pilotos perderam a vida, entre eles, o escocês Jim ClarkEis um excerto desse meu artigo:

“O automobilismo sempre foi um desporto perigoso. Contudo, há 45 anos, as possibilidades de um piloto morrer eram enormes. Se hoje, os pilotos correm em vinte pistas, em regime de exclusividade, em 1968, disputavam uma variedade de provas, numa variedade de máquinas, chegando a participar em 40 corridas por época. 


Nos dias de hoje, um carro de Fórmula 1 é essencialmente feito em fibra de carbono, um composto ao mesmo tempo leve e resistente, e é feito à medida para reduzir a números negligenciáveis a possibilidade de ferimento grave ou de morte do piloto. Contudo, em 1968, a percentagem de acidentes era incrivelmente maior. 

Os carros eram feitos em alumínio, os depósitos de gasolina eram colocados nas laterais do carro, sem proteções de qualquer espécie e sujeitos ao impacto de uma colisão. Em cada temporada, era habitual haver entre dois a três pilotos a perder a vida. Mas naquele ano, as coisas correram horrivelmente mal. Quatro talentosos pilotos morreram em quatro meses seguidos. E um deles era considerado na altura o melhor de todos: o escocês Jim Clark.”
Todos os meses, o site publicará três artigos, sempre longos, no intuito de agradar ao leitor que queira ver, sentado no seu portátil, telemóvel ou tablet; em casa ou numa esplanada à beira-mar, sobre assuntos que são do seu interesse, sejam eles de politica, cultura, economia ou desporto. E é pago: cada artigo vale 90 cêntimos de euro, enquanto que a publicação inteira vale 1.90 euros, pagos com cartão de crédito ou outros, como o PayPal.

Claro, é para ganharmos dinheiro com isso, mas tenho a certeza que valerá a pena.

Para quem gosta de ler, eis o endereço do site: http://adn80.com/

Youtube Grand Prix Classic: A ameaça dos pilotos ao GP belga

Faz hoje 40 anos que decorreu o GP da Belgica, no circuito de Zolder. Em 1973, a pista situada na parte flamenga do país estava a estrear-se no calendário do mundial, depois de Spa-Francochamps ter sido excluido do calendário (só voltaria em 1983) e de terem ido corroer em Nivelles, uma pista que não impressionou muita gente. 
Mas o que poucos sabem é que, por muito pouco, a corrida esteve para não se realizar. Uma semana antes, os organizadores decidiram colocar uma nova capa de asfalto, que quando os carros começaram a passar por lá, este quebrou em diversos pontos da pista. E o pessoal da GPDA (Grand Prix Drivers Association) liderado por Jackie Stewart e Emerson Fittipaldi, ameaçou que não iriam correr no domingo, se não fizessem as devidas reparações. E Francois Cevért, companheiro de Stewart na Tyrrell e outro dos membros da GPDA, não se coibiu de ameaçar um dos organizadores com um ultimato.
Este parte do filme tem apenas 40 segundos, mas demonstra até que ponto a corrida belga esteve para ser cancelada e como eram as coisas há 40 anos. 

Noticias: Documentário sobre Jackie Stewart estreia em Cannes

No próximo dia 22, em Cannes, Roman Polanski e Jackie Stewart irão relançar um filme com… 40 anos. “Weekend of a Champion” trata do fim de semana do piloto escocês no GP do Mónaco de 1971, corrida onde ele conseguiu uma das suas seis vitórias, a caminho daquilo que iria ser o seu bicampeonato. O filme, que teve distribuição limitada quando foi lançado, em 1972, acabou por ser obscurecido ao longo dos anos, sendo agora redescoberto por ambos os protagonistas.
No documentário – feito como se fosse um reality show “avant la lettre” – Stewart expõe a sua vida ao longo de um fim de semana de Grande Prémio, explicando os detalhes dos preparativos, da pista, bem como fala das suas motivações e preocupações.
Agora, 41 anos depois, o filme foi refeito, com Stewart e Polanski a voltarem ao mesmo quarto de hotel, e o filme terá direito a estreia oficial. E aparecerá na seleção oficial do famoso festival de cinema francês. Após isso, será distribuído pela Ray Documentary Films, que disponibilizará na rede Netflix.
E este pode não ser o unico filme sobre Jackie Stewart. Sabe-se desde o ano passado que este quer fazer outro sobre a relação entre Stewart e o seu companheiro de equipa na Tyrrell, o francês Francois Cevért, morto a 6 de outubro de 1973 no circuito americano de Watkins Glen. Ainda não se sabe em que pé está o filme, mas o facto de este ano vir “Rush”, realizado por Ron Howard, fez com que o cinema ande a descobrir o automobilismo, pois outros projetos existem ou vêm a caminho.  
Definitivamente, Hollywood está a voltar a descobrir a Formula 1. 

GP Memória – África do Sul 1973

Três semanas após terem corrido no Brasil, máquinas e pilotos atravessavam o Atlântico para participarem na terceira corrida do ano, a realizar em paragens sul-africanas. Com Emerson Fittipaldi a dominar o campeonato, cabia à Tyrrell reagir, sob pena de ver o piloto brasileiro a escapar, rumo à uma possível revalidação do titulo.
Em paragens sul-africanas, a Shadow fazia enfim a sua estreia na Formula 1, com dois chassis, entregues ao britânico Jackie Oliver e ao americano George Follmer, mais conhecido pelas suas participações na Can-Am e Trans-Am, onde era um dos melhores pilotos. Havia também outra entrada nova, a de Andrea de Adamich, num Surtees inscrito pela Cerâmica Panagossin.
Na McLaren, o novo chassis estava pronto, e entregue a Dennis Hulme, enquanto que os outros dois M19 eram para o americano Peter Revson e o local Jody Scheckter. Para além dele, ainda iria haver mais três sul-africanos: Jackie Pretorius, que iria guiar um Iso-Marlboro no lugar de Nanni Galli – lesionado depois de um acidente – Dave Charlton, num Lotus 72 da Scuderia Scribante, e Eddie Keizan, num Tyrrell privado da Lexington Racing.
Com 25 carros inscritos, no final da qualificação, o novo chassis da McLaren deu resultados inesperados, com Dennis Hulme a ser o melhor, fazendo aos 37 anos a sua primeira pole-position da sua carreira. Emerson Fittipaldi era o segundo, no seu Lotus, seguido pelo segundo McLaren de um surpreendente Jody Scheckter. Ronnie Peterson era o quarto, seguido pelo BRM de Clay Regazzoni. Peter Revson era o sexto, no terceiro McLaren, seguido pelo segundo BRM de Jean-Pierre Beltoise. O argentino Carlos Reutemann era o oitavo, no seu Brabham-Ford, e o “top ten” era fechado pelo Surtees-Ford de José Carlos Pace e o terceiro BRM de um jovem austríaco chamado Niki Lauda.
A Tyrrell tinha tido uma qualificação para esquecer: Jackie Stewart tinha tido um acidente na qualificação e o seu carro era sucata, partindo apenas do 16º posto e Francois Cevért tinha o chassis reserva e largava do último lugar. Já a estreante Shadow tinha também uma qualificação modesta, com Oliver na 14ª posição e Follmer no 21º lugar da grelha.
A partida foi sem problemas, com Hulme no comando e os três McLaren nas quatro primeiras posições, com o intruso a ser Fittipaldi, o segundo, seguido por Scheckter e Revson. Stewart começou a fazer uma corrida de recuperação, assim como Dave Charlton, que era sétimo e atacava Reutemann para chegar ao sexto posto, com o seu Lotus. Contudo, no inicio da terceira volta, o piloto local perde o controlo e bate no Surtees de Mike Hailwood. Este fica parado no meio da pista, onde é atingido pelo Ferrari de Jacky Ickx e pelo BRM de Clay Regazzoni.
No momento seguinte, ambos os carros pegam fogo, e enquanto que Hailwood consegue sair do seu Surtees, o suíço não conseguia sair do seu BRM, porque o seu cinto ficara preso. Com as chamas a alcançarem o seu carro, Hailwood chegou-se perto dele, para o ajudar a sair, o que conseguiu, não sem antes as chamas chegassem ao pé das suas pernas e este tivesse de sair dali para que as pudesse apagar. Ambos foram ao hospital, mas tinham queimaduras ligeiras.
O acidente também teve consequências para Hulme, pois quando passava pelos destroços, um deles furou um dos pneus e teve de ir às boxes para trocar, caindo para o final do pelotão. Isso deu o comando para Fittipaldi, mas depois, a liderança ficou nas mãos de Scheckter. Mas vindo de trás, Stewart estava a fazer uma recuperação espetacular, e na sétima volta, passava o sul-africano e já estava no comando, começando lentamente a distanciar-se da concorrência.
Scheckter tentou defender o seu segundo posto dos ataques de Fittipaldi, mas aos poucos, o sul-africano começava a ficar com os pneus mais degradados do que o normal, e a partir do meio da corrida, perdeu uma posição para o Lotus do brasileiro. Pouco depois, foi a vez de Peter Revson ficar com o terceiro lugar, enquanto que, vindo de trás, Hulme fazia uma recuperação espetacular, chegando à zona dos pontos, no sexto posto, mas longe de Scheckter.
Parecia que o jovem sul-africano iria conseguir os seus primeiros pontos da sua carreira, mas a quatro voltas do fim, o seu motor deixa de funcionar e o quarto lugar cai nas mãos do Ferrari de Arturo Merzário.
Por essa altura, Stewart tinha uma vantagem de 24 segundos sobre Peter Revson, e foi nessa ordem que terminou a corrida. O escocês tinha feito uma grande corrida e conseguia a sua primeira vitória do ano, na frente de Peter Revson. Emerson Fittipaldi fechava o pódio no seu Lotus, mas mantinha a liderança do campeonato. Dennis Hulme foi o quarto, enquanto que nos restantes lugares pontuáveis ficaram o Ferrari de Merzário, o McLaren de Hulme e o Shadow de Follmer, que conseguia aqui o seu primeiro ponto da carreira.